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Vamos falar sobre suicídio?

Um assunto compreendido como perigoso, proibido e extremamente devastador tem roubado a cena dos noticiários nacionais e internacionais; a segunda maior causa de mortes entre jovens no mundo: o suicídio.

De acordo com as estatísticas de saúde mundiais (WHO, 20101) no mundo, todos os anos, aproximadamente 1 milhão de pessoas tiram suas vidas, ou seja, uma taxa de mortalidade de 16 por 100.000 habitantes, o que contabiliza 1 morte a cada 40 segundos e coloca o suicídio como sendo a 13ª causa de morte mundial e, no Brasil, a 3ª mais frequente em indivíduos do sexo masculino com idades entre 15 e 29 anos e a 8ªentre as mulheres da mesma faixa etária.

É válido ressaltar que na população brasileira, apesar de o suicídio ser a 8ªcausa de morte entre as mulheres, entre 2011 e 2016 das 48.204 tentativas de suicídio 69% foram feitas por mulheres e 58% por envenenamento ou intoxicação.

Quanto à reincidência de tentativas, as mulheres também lideram esse ranking, enquanto os homens tem mais sucesso em suas tentativas, possivelmente por se utilizarem de formas mais agressivas e violentas.

As estatísticas de suicídio crescem no Brasil a cada dia e os dados recentes apresentados pelo Ministério da Saúde mostram que a faixa etária dos 15 aos 19 anos concentraram 722 mortes em 2015, um número que poderia ser ainda mais assustador se esse tipo de morte não sofresse as consequências da subnotificação, que ainda é uma realidade no nosso país.

Em Setembro de 2017, mês de prevenção e conscientização do suicídio, o Ministério da Saúde lançou uma agenda estratégica2, cuja meta principal é reduzir em 10% o número de suicídios no país até 2020. Para tanto, oferece algumas possibilidades de ações estratégicas envolvendo melhoria nas notificações, ampliação e qualificação da assistência através de orientações aos diversos setores tanto da área da saúde, quanto a mídia e centros de cuidado e acolhimento, como o CVV (Centro de Valorização da Vida), por exemplo.

Recentemente temos acompanhado uma onda de notícias envolvendo o ato de tirar a própria vida e discussões sobre a saúde mental dos jovens, o que seria extremamente benéfico e interessante se junto com isso a internet não fosse inundada por “receitas” e dicas para prever o comportamento suicida ou para diagnosticar quadros de transtornos de humor, como depressão e ansiedade, ou ainda transtornos de personalidade.

Devemos considerar, porém, que a questão é bem mais complexa e delicada do que isso, visto que o suicídio é compreendido como multifatorial, ou seja, diversos fatores contribuem para esse triste desfecho e entre as possíveis causas podemos encontrar aspectos econômicos, religiosos, sociais, culturais, biológicos, psicológicos e psiquiátricos.

O suicídio não tem cara e é, muitas vezes, o desfecho encontrado por muitas pessoas para acabar com um sofrimento interminável, acompanhado de uma dor lancinante e perturbadora. Contudo, a boa notícia é que o suicídio pode ser prevenido, mas para que isso aconteça é necessário um investimento em espaços dialógicos entre as famílias, escolas e toda a sociedade, para que esse assunto seja tratado com o respeito e a seriedade que merece.

É através do diálogo que construímos espaços seguros, de acolhimento e validação para que os adolescentes e jovens adultos possam expressar suas emoções, compartilhar seus pensamentos e, dessa maneira, sintam-se cuidados, protegidos e não ridicularizados por estarem sofrendo de algo subjetivo e que envolve sua saúde mental.

Infelizmente, apenas após acontecimentos amplamente difundidos pela mídia é que parece ter começado a fazer sentido para pais e educadores colocarem em pauta a discussão desse tema com os filhos e com a sociedade.

Investindo nesses espaços colaborativos de escuta e acolhimento criamos redes de apoio, ampliamos a consciência de toda a sociedade e instrumentalizamos os adolescentes, educadores e familiares a prestarem o socorro necessário àqueles que sofrem em silêncio.

Se você está preocupado com alguém ou pensando em se matar, não hesite em procurar ajuda, pois você não está sozinho. Procure ajuda através do CVV (www.cvv.org.br ou pelo telefone 188), ou busque por pessoas que você confia, que podem ser amigos, familiares, seu líder da igreja, seu terapeuta ou psiquiatra. Tente manter a calma, respirar e usar aquilo que você já aprendeu para superar esse momento, são poucos segundos e atitudes simples que podem salvar uma vida e lembre-se sempre, você fez e está fazendo o melhor que pode.

Mariana Filippini Cacciacarro

Graduação em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Mestrado em Psicologia Clínica pela mesma instituição e especialização em Terapia de Família e Casal pelo COGEAE-PUCSP. Atua no atendimento psicológico individual de crianças, adolescentes e adultos, atendimentos familiares e de casal, orientação de pais e supervisão de metodologia de pesquisa.

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