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Um olhar atento ao risco de suicídio: intervenções preventivas

Com as atuais notícias e casos sobre o suicídio, precisamos ter um olhar atento aos sinais que as pessoas que estão ao nosso redor emitem diante dos seus dilemas e problemas. Muitas vezes os sinais e sintomas são claros, como: a depressão, ansiedade, luto, sendo sintomas que nos deixa em alerta diante do sofrimento do próximo, mas não só esses.

Vemos atitudes, comportamentos, ideias, que muitas vezes aparecem de forma sutil. Em uma conversa entendemos que aquela pessoa pensa em suicídio, pensa em formas e até planejam formalizar essa ideia.

Hoje falar sobre o suicídio, seus fatores de risco e de proteção tem tomado mais espaço nas mídias, em filmes, séries e noticiários, mais será que é o suficiente?

Diante dos estudos realizados pela OMS, vemos que uma a cada dez tentativas de suicídio, é fatal, ocorrendo uma morte precoce, triste, devastando uma família que fica sem entender o que aconteceu. De fato é um problema de saúde pública que precisa ser olhado de forma multidisciplinar, pois, mesmo com o aumento do número de óbitos por suicídio no Brasil, não temos politicas de prevenção em nível nacional, sendo assim, precisamos cuidar de um a um que precisam de cuidados e direcionamento para passar por esse momento onde aliviar o sofrimento é o que a pessoa mais deseja.

Entre as 4 maiores causas de morte de adolescentes e jovens na faixa etária de 15 a 29 anos, está o suicídio. É um dado alarmante que infelizmente vem aumentando e entendemos que muitas mortes não são validas como suicídio, por não terem provas concretas ou pelo pedido da família em não aceitar essa atitude de seu familiar.

Por tanto, temos que ter um olhar atento para nossos adolescentes e jovens, que estão sendo mais alcançados por essa alternativa de eliminar o sofrimento.

Prevenção: o que podemos fazer

Como fatores de proteção, sempre vou frisar que falar é a melhor opção sempre e diante disso falo tanto para familiares, amigos e profissionais que muitas vezes percebem esses sutis sinais, mas não tem coragem de tocar nesse assunto, pois ainda sendo considerado um tabu, muitas vezes quem está próximo não tem coragem de perguntar sobre ideias de suicídio que as pessoas podem ter, então falar é a melhor opção, perguntar, questionar, conversar com quem você acha que esta em risco.

E falo isso também para quem está sofrendo, quem está pensando em suicídio como única alternativa e como psicóloga, posso garantir que não é a única opção, na verdade não é OPÇÃO, a opção é falar sobre a dor, o desespero, a angústia, encarar esse momento difícil, aprender a ressignificar esses sentimentos, lembranças, percas e vencê-los.

A dificuldade do indivíduo em encontrar alternativas para seus problemas não pode incapacitá-lo, por isso podemos ajudá-los a sair do fundo do poço.

Os adolescentes e jovens estão na categoria de maior risco e diante de todas as transformações e desafios dessa fase da vida, eles muita necessidade em falar, embora muitos sejam tímidos, sutilmente vão abrindo espaço para se manifestar, por tanto, a interação com o outro é vital.

Intervenções Preventivas

– Necessidade de apoio e atenção para se sentirem seguros: O primeiro grande ambiente que precisamos nos sentir seguros é em nossa família. Começamos a nossa formação com os pais ou cuidadores e é nesse contexto que precisamos achar um refúgio, um espaço de diálogo e confiança. Que possa haver um bom relacionamento familiar.

– Possibilidade de poder falar sobre o que pensa e sente: Com a família, amigos, professores, profissionais, precisa existir alguém que possa ouvir e não julgar essa pessoa pela dor que é sentida nesse momento, pois, nada é simples e fácil de ser resolvido para quem vem cultivando e convivendo com a angústia diariamente. Que possamos ser um canal de confiança para quem precisa ser ouvido.

– Boas habilidades: quais são as habilidades que essa pessoa têm? Muitas vezes o sofrimento está tão nebuloso, que fica difícil ver o que é bom. Mostre o que você enxerga de bom nessa pessoa, quais são os talentos, aptidões. Relembre o que é bom.

– Confiança em sim mesmo, em suas conquistas e situação atual: Incentivar a valorização de sua história, atitude fundamental para construção de um futuro satisfatório.

– Capacidade de procurar ajuda quando surgem dificuldades: Ser um canal aberto para o diálogo, saber ouvir quem está em sofrimento, sem julgamento, pré-conceitos, apenas ouvir, acolher, entender quais são as ideias e angústias.

– Interação social: Estimule essa pessoa a praticar esportes, fazer cursos, frequentar clubes, estar com pessoas, ter amigos. A interação com outras pessoas faz que com pensamos em outras coisas, falamos sobre outros assuntos e assim deixamos de lado pensamentos negativos e conseguimos olhar com mais clareza para as dificuldades.

– Bom relacionamento com adultos: ter um relacionamento positivo com adultos, pais, autoridades é positivo e devemos sempre incentivar essa relação.

– Bom controle emocional: Encoraje quem está em sofrimento a falar dos seus sentimentos, nada é bobagem, nada é simples e sem importância. Tudo para aquela pessoa tem um peso e deve ser levado em consideração. Precisamos ser empáticos, nos colocando no lugar do outro para assim termos uma escuta mais assertiva e ajudar quando for necessário.

– Amem: Sentir-nos amados, faz um bem incrível, mudanças significantes são perceptíveis em pessoas que se sentem amadas e as que não se sentem amadas, então sempre demostre seu amor, carinho e preocupação por quem está a sua volta. Isso gera segurança, confiança e promove saúde.

– Tome atitudes: É muito importante amar quem está em sofrimento, mas muitas vezes não é suficiente proporcionar um ambiente para comunicação, acolhimento e confiança, é preciso tomar atitudes. Então não guarde segredos, procure ajuda, envolva outras pessoas e profissionais, tenha sempre em mente que é um momento grave e que podemos sim fazer intervenções, mas que pode não ser suficiente, por isso procure ajuda e procure um profissional.

A prioridade precisa ser sempre a prevenção e reconhecer que o indivíduo está em sofrimento e / ou com risco aumentado de suicídio, sendo assim, proporcione ajuda, alivio e ajude a pensar em novos caminhos e soluções.

Referências

Conselho Federal de Medicina (CFM); Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Suicídio: informando para prevenir. Brasília, 2014.

Esteves de Vasconcelos, M. J. (2002). Pensamento sistêmico: novo paradigma da ciência. Campinas: Papirus.

Meneghel SN, Victora CG, Faria NMX, Carvalho LA, Falk JW. Características epidemiológicas do suicídio no Rio Grande do Sul. Rev Saúde Publica. 2004;38(6):804-10.

Volpe, F.M.; Corrêa, H.; Barrero, S. P. Epidemiologia do suicídio. In: ed(s) Corrêa, H.; Barrero, S. P. Suicídio: uma morte evitável. São Paulo: Editora Atheneu, 2006.
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