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Posvenção em suicídio: Cuidando da dor dos sobreviventes

Quando acontece um suicídio, muitas pessoas são por ele impactadas. Dados da American Foundation Suicide Prevention (AFSP, 2011), apontam que ao longo de sua existência 20% da população pode passar por um suicídio na família, assim, é importante refletirmos a respeito das ações necessárias em termos de cuidado e acolhimento aos que ficam. Para tanto, devemos compreender alguns conceitos importantes, como é o caso da posvenção.

O conceito de posvenção foi desenvolvido por Shneidman (1973) e refere-se ao cuidado sobreviventes enlutados por suicídio, ou seja, familiares, amigos, colegas e todos aqueles que foram afetados direta ou indiretamente por uma morte por suicídio. Portanto, trata-se de uma ferramenta de cuidado com saúde mental indispensável nesses casos. Para o autor, ações de posvenção também podem ser consideradas preventivas para as gerações futuras, visto que, além de promoverem um espaço de cuidado aos enlutados, podem ter a função de promover o acesso à informação, auxiliar na construção de diálogos sobre o tema e, consequentemente, contribuir para a diminuição do tabu em relação ao suicídio.

Dessa maneira, entendemos a posvenção como uma forma de ajuda logo após o suicídio, através de ações de suporte, intervenção e assistência, cujo objetivo é auxiliar os sobreviventes a lidarem com o luto e o trauma da morte de uma pessoa querida por suicídio, levando uma vida com mais qualidade e menos sofrimento.

Os serviços de posvenção podem estar disponíveis tanto na esfera pública quanto privada, no entanto, em nossa visão, pelo fato de o suicídio ser um problema de saúde pública, as ações de posvenção deveriam estar contempladas nas políticas publicas que tratam da questão, uma vez que indivíduos que vivenciaram um suicídio tem risco aumentado de se engajar em comportamentos semelhantes.

Atualmente, com o aumento dos casos de suicídio entre adolescentes no Brasil, temos observado muitas ações de posvenção acontecendo em escolas, por exemplo. Nesses casos, podem acontecer palestras, grupos de apoio e acolhimento pensados especificamente para dar voz aos alunos, funcionários e toda comunidade escolar.

Um outro tipo de ação nesse sentido, são os grupos para familiares enlutados,normalmente em formato aberto, com periodicidade mensal ou quinzenal e que podem ser conduzidos não apenas por profissionais, mas também por sobreviventes que se sentem seguros e tranquilos em acolher e auxiliar pessoas que estão vivendo uma situação semelhante. É importante ressaltar que esse tipo de grupo não tem caráter terapêutico, seu objetivo é acolher e cuidar dos sobreviventes enlutados promovendo um espaço de troca, escuta e acolhimento.

De acordo com Sacvacini (2011), sem ajuda apropriada, os sobreviventes podem vir a experienciar um luto traumático e complicado e os serviços de posvenção podem ser um caminho para se encontrar os cuidados especializados necessários para o manejo do processo de luto, o que também funcionará como um fator de proteção a esses sobreviventes enlutados.

Mesmo com o aumento dos casos de suicídio no país, os espaços de cuidado aos que ficam ainda são restritos e o tabu, a vergonha e o medo do julgamento, ou das perguntas inoportunas acerca das circunstâncias da morte, ainda impedem muitos sobreviventes de buscar ajuda, assim, compreendemos que um dos nossos deveres como profissionais de saúde em contato com demandas tão profundas, é nos engajarmos difundindo informações sobre prevenção e posvenção do suicídio, pois apenas assim será possível desconstruirmos os estigmas e julgamentos relacionados ao comportamento suicida como um todo e atuarmos como agentes de promoção de saúde, conscientização e cuidado.

Referências:

AFSP. (2011). After a Suicide: A Toolkit for Schools. Newton, MA: Educational
Development Center, Inc.

Scavacini, K. (2011). Suicide Survivors Support Services and Postvention Activities - The availability of services and an interventions plan in Brazil. (Dissertação de Mestrado em Saúde Pública), Karolinska Institutet, Stockholm.

Shneidman, E. (1973). Deaths of a man. New York: Quadrangle.
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