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O arco-íris um pouco menos colorido: suicídio entre jovens e adolescentes gays

No primeiro final de semana de junho, aconteceu em São Paulo a já tradicional Parada do Orgulho LGBTI+[2] em sua 22 edição. Segundo os organizadores, a Parada contou com a participação de mais ou menos 3 milhões de pessoas que celebraram a visibilidade das pessoas LGBTI+ na luta por direitos igualitários e na luta contra o preconceito e a discriminação social.

Marcada por um clima festivo a Parada enfatizou mais uma vez a importância em combater o preconceito que tanto afeta a vida de milhões de pessoas LGBT. Porém, para além deste clima amistoso, existe uma realidade muito preocupante e triste que é o alto índice de tentativas de suicídio e suicídio, principalmente entre jovens e adolescentes gays.

Vamos a duas situações que se tornaram muito conhecidas, pois seus personagens, jovens gays, fizeram circular pela internet o bullying homofóbico que sofriam e que levaram ambos a cometerem suicídio por não suportarem o sofrimento em relação a sua orientação sexual. É isso mesmo, o suicídio entre jovens gays tem rosto, história e uma teia de fatores que vão desde a falta de compreensão e rechaço da própria família a questões relacionados a homofobia institucionalizada e internalizada.

A primeira história é a do adolescente americano Jamey Rodemeyer, que se suicidou em setembro de 2011 com 14 anos de idade. Jamey postava vídeos na internet falando sobre o sofrimento em ser vítima constante de bulliyng e o quanto isso o fragilizava. Em seus depoimentos na internet Jamey deixou registrado “As pessoas me odeiam, me dizem que iria pro inferno por ser gay” ou ainda frequentemente ouvia de seus colegas de escola “Bicha… porque você não se mata”. A morte prematura de Jamey teve ampla repercussão, tornando-o uma espécie de símbolo na conscientização sobre a importância da prevenção do suicídio entre adolescentes e jovens gays. Para assistir um dos depoimentos de Jamey acesse o link https://www.youtube.com/watch?v=440bOCfBtu0.

Outra história sobre suicídio motivado pelo preconceito contra a orientação sexual é a do jovem brasileiro Yago Oliveira, acontecido na cidade de Sapé na Paraíba em 2017. Após postar na internet um grande desabafo sobre o preconceito e a perseguição que sofria por parte de sua família por não aceitarem ou respeitarem sua orientação sexual, o jovem cometeu suicídio, denunciando a hipocrisia das atitudes de seus familiares e o grande sofrimento que vivia. Seu depoimento pode ser acessado no link https://www.pragmatismopolitico.com.br/2018/03/suicidio-yago-oliveira-jovem-gay.html

Mediante tais situações, cabe-nos perguntar: Jovens e adolescentes LGBTI+ são mais propensos e mais vulneráveis a tirarem suas vidas por conta do sofrimento relacionado a homofobia? Temos evidências cientificas e pesquisas nesta temática?

A resposta para ambas as perguntas acima é SIM.

Segundo a APA – Associação Americana de Psicologia[3], jovens e adolescentes LGBTI+ sofrem altos índices de rejeição, discriminação e violência, sejam elas social, familiar ou escolar e esses fatores estão relacionados e elevam em 8,4 vezes a possibilidade de tentativas de suicídio, e em 5 vezes o risco de cometer o suicídio se comparados aos seus pares heterossexuais. Estas evidências também aparecem nos estudos do pesquisador Mark Hatzenbuehler da Universidade de Columbia e publicada na revista científica Pediatrics em 2011, que mostra a relação entre o estigma sofrido por esses jovens e adolescentes e o risco de tentativa e suicídio, postulando que 40% deste público já apresentou “ideação suicida”, ou seja, já pensaram uma ou mais vezes em se matar.

No Brasil a vulnerabilidade de jovens e adolescentes LGBTI+ também é demonstrada pela recente Pesquisa Nacional sobre o Ambiente Educacional no Brasil (ABLGT, 2016). A pesquisa foi realizada por intermédio de um questionário online e respondida por 1.016 jovens e adolescentes LGBTI+ entre 13 e 21 anos de idade em todo o território nacional. Os resultados da pesquisa apontaram que 60% dos jovens e adolescentes sentiam inseguros/as na escola por causa de sua orientação sexual, 48% ouviram com muita frequência comentários homofóbicos feitos por seus pares, 73% foram agredidos/as verbalmente por causa de sua orientação sexual, evidenciando o quanto o ambiente escolar brasileiro é um espaço extremamente ameaçador para esse grupo, aumentando a vulnerabilidade e o risco para o isolamento social e transtornos psicológicos – como quadros depressivos, por exemplo, que podem ocasionar ideias e práticas suicidas.

As pesquisas no Brasil sobre essa temática ainda são incipientes. Devemos conhecer mais essa realidade para que possamos construir estratégias de promoção de saúde e prevenção olhando para a realidade e para as especificidades de jovens e adolescentes LGBTI+.

Nós, terapeutas de família, temos uma grande responsabilidade no que tange ao manejo psicológico nessas situações. Mesmo com maior tolerância e mudanças de crenças sobre a homossexualidade, a mesma continua sendo um tabu no seio familiar. Ainda é bastante comum familiares acessarem profissionais da psicologia, ou procurarem apoio terapêutico para compreenderem ou darem conta da homossexualidade de seus filhos.

A demanda em um trabalho com a família é desconstruir mitos relacionados a homossexualidade, “normatizar” a orientação sexual e também apoiar o processo de revelação social que implica a lógica do segredo, afetando o relacionamento com redes pessoais e sociais.

Ao atender o indivíduo homossexual e sua família o terapeuta precisa reconhecer suas ressonâncias sobre temas como orientação sexual, identidade de gênero, relacionamentos amorosos homoafetivos, desconstruindo as perspectivas heteronormativas que condicionam e produzem muito vieses.

Queremos e podemos acreditar que informações e intervenções que promovam bem estar e maior qualidade de vida a adolescentes e jovens gays e suas famílias podem contribuir para que outros Jameys e Yagos não saiam deste mundo de forma tão precoce e de maneira tão triste e violenta, deixando o arco-íris da diversidade menos colorido.

Seguem as referências citadas no texto para aprofundamento sobre o tema.

SINGH, A.A.; MOSS, L.; MINGO, T. EAKER, R. LGBTQQ Students and Safe Schools: A Call for Innovation and Progress, APA, 2015.

PESQUISA NACIONAL SOBRE O AMBIENTE EDUCACIONAL NO BRASIL AS EXPERIÊNCIAS DE ADOLESCENTES E JOVENS LÉSBICAS, GAYS, BISSEXUAIS, TRAVESTIS E TRANSEXUAIS EM NOSSOS AMBIENTES EDUCACIONAIS, disponível em http://www.abglt.org.br/docs/IAE-Brasil.pdf,

HATZENBUEHLER, M.K. The Social Environment and Suicide Attempts in Lesbian, Gay and Bisexual Youth.. Pediatrics,May 2011, Volume 127/ ISSUE 5 . Disponível em http://pediatrics.aappublications.org/content/127/5/896

Na internet vale a pena conhecer:

https://www.facebook.com/itgetsbetterbrasil/

https://www.facebook.com/search/top/?q=rede%20nacional%20de%20adolescentes%20lgbt

São páginas no Facebook que buscam por intermédio da rede social promover apoio, suporte, disseminação de informação e mensagens de superação e esperança a jovens e adolescentes LGBTI+ em situações de vulnerabilidade e risco.

[1] Doutorando e Mestre em Psicologia Clínica e Especialista em Terapia Familiar e de casal – PUC SP. Especialista em Psicologia Hospitalar e Reabilitação pelo HC FMUSP. Membro da ANEXA – NUFAC – PUC SP. Coordenador e responsável pela área de empregabilidade da Fundação Dorina Nowill para Cegos e corresponsável pelo GPAIH – Grupo de Pais Homossexuais.

[2] A sigla LGBTI + significa Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgênicos, Intersexo e o símbolo + para todos outras orientações sexuais e identidades de gêneros não normativas. Nosso olhar neste texto foi direcionado a jovens e adolescentes gays cisgêneros, por compreendermos que cada identidade no universo LGBTI+ tem suas especificidades e desafios e pelas pesquisas demonstrarem que que são os homens gays jovens e adolescentes que mais cometem suicídio.

[3] A APA já mantém desde da década de 1970 uma seção específica com diretrizes e orientações específicas para o trabalho, pesquisa e prática do Psicólogo Clínico junto a população LGBTI+ que pode ser acessado pelo site www.apadivision44.org.br
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