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Luto por suicídio e acolhimento aos enlutados

Como lidar com uma dor tão grande e com sentimentos de culpa, tristeza, raiva e uma infinidade de perguntas que nem sempre terão suas respostas esclarecidas?

Segundo a Associação Internacional de Prevenção ao Suicídio, cada morte por suicídio abala profundamente cerca de 5 a 10 pessoas e chega a afetar outras 135 pessoas, deixando-as psicologicamente vulneráveis.

Para Daniel Martins de Barros, psiquiatra do IPq-HC, a franqueza e a empatia no falar sobre o assunto são de extrema importância quando se trata de morte pelo suicídio,“É um momento de compartilhar a dor, oferecer o ombro e não evitar a pessoa enlutada.”

Muitas vezes quando sabemos de uma morte trágica nos afastamos e preferimos não falar nada com a pessoa enlutada, mas essa atitude é muito mais para evitar nossa própria dor frente à morte. Para a pessoa que está vivendo este sofrimento falar pode ser o único alívio “nenhuma dor diminui se você não tiver com quem falar sobre ela”. Todas as pessoas afetadas de alguma forma por uma morte pelo suicídio devem ter o direito de viver esse luto, diz o psiquiatra.

A nossa maior atenção deve ser pela compreensão do processo de luto pelo suicídio, que se dá de maneira diferente. Em seu livro “Crise suicida”, o Dr. Neury José Botega, psiquiatra e professor titular de Campinas, nos fala que: “o processo de luto que se segue a um suicídio costuma ser mais difícil e mais doloroso, tanto para familiares e amigos como para profissionais da saúde, pois combina sentimentos de tristeza e de raiva, este último em reação à violência imposta pelo suicídio”. O ente querido ora tão conhecido torna-se um desconhecido devido ao suicídio. O “pai herói” passa a ser o “pai que se matou” e assim o enlutado e todos os atingidos por esse verdadeiro “tsunami existencial” devem achar uma maneira de sobreviver a essa dor e ao choque desse acontecimento. Buscar um sentido é imprescindível para superar esse momento (Fukumitsu, 2013).

O luto pelo suicídio passa por varias fases, inicialmente pela fase do choque, onde as reações são de surpresa e espanto, depois vem a culpa, “como eu não percebi?”, “deveria ter feito alguma coisa”, “eu poderia ter evitado”, em seguida vem a raiva e os sentimentos de desamparo. É muito difícil aos enlutados suportar sentimentos de tristeza e vazio e a sensação de abandono e desamparo. Algumas pessoas, pela dificuldade em lidar com essa imensa tristeza e vazio, dão espaço a uma fase de agitação, dedicando-se exaustivamente a tarefas externas e aumentando assim a ansiedade.

Não é raro as pessoas simplesmente se calarem numa “tragédia silenciosa” frente ao estigma social, dificuldade de enfrentamento, vergonha e culpa , transformando o suicídio em uma dor que não pode ser compartilhada.

“Nenhuma dor diminui se você não tiver com quem falar sobre ela”
(Dr. Daniel Martins de Barros, psiquiatra do IPq-HC)

Damos o nome de posvenção às várias medidas oferecidas no sentido de favorecer a expressão de ideias e sentimentos relacionados ao trauma e à elaboração do luto. Neste sentido, a posvenção pode ser considerada um trabalho de prevenção, uma vez que parentes e amigos enlutados têm um risco maior do que o restante da população de cometer o suicídio.

Segundo a psicóloga suicidologista Karina Okajima Fukumitsu, “o trabalho de posvenção visa a um lugar onde a pessoa em processo de luto possa ser ouvida, respeitada e, principalmente, cuidada em seu sofrimento e forma de enfrentamento singular. Pretende-se auxiliar o enlutado a minimizar os impactos do suicídio e, sobretudo, proporcionar ao enlutado a ampliação de possibilidades para vislumbrar uma nova configuração, apesar das vivências confusas e que provocam mais dúvidas do que esclarecimentos”.

Os grupos de apoio, terapias voltadas à posvenção e também conversas com pessoas queridas, auxiliam na elaboração de um novo sentido e na aceitação de que sentimentos de raiva e culpa fazem parte desse processo de luto.

Os grupos de apoio, por meio de depoimentos, ajudam o enlutado a se dar conta de que muitas outras pessoas estão passando ou já passaram por momento semelhante, contribuindo para que se sinta acolhido e compreendido.

Assim, se você está passando por um momento como este ou conhece alguém que esteja precisando de cuidados, deixo abaixo links de grupos de apoio.

– O Centro de Valorização da Vida realiza apoio emocional e prevenção ao suicídio – ligue 188 atendimento 24 horas

– Instituto Vita Alere tem grupos de prevenção e posvenção do suicídio – ligue 50843568 – SP