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Cyberbullying: O bullying além dos limites da internet

Na língua inglesa, bullying é um substantivo derivado do verbo bully, que significa “machucar ou ameaçar alguém mais fraco para forçá-lo a fazer algo que não quer”. São atos de violência física ou psicológica intencionais e repetidos, praticados por um indivíduo ou grupo de indivíduos, causando dor e angústia e sendo executadas dentro de uma relação desigual de poder.

Já o cyberbullying ocorre quando essa agressão é feita no ambiente digital (internet, redes sociais, sites, mensagens de texto, vídeos, entre outros), portanto, o agressor se utiliza do espaço virtual para intimidar, difamar, insultar, ameaçar, amedrontar, de forma covarde e recorrente, causando sofrimento, angústia e stress. Contudo, diferente do bullying, ao qual você sabe e conhece o agressor, no mundo virtual é mais fácil camuflar, pois o agressor pode ter os mais variados nomes, rostos e contas, já que costumam cadastrar diversos perfis falsos, tornando mais complicado identificar o infrator.

Para saber se é realmente bullying, ou cyberbullying, é preciso identificar qual o limite entre o brincar e o abuso. Constatado o abuso e a persistência da ofensa, de acordo com o capítulo V do Código Penal, esse comportamento é considerado um crime de ameaça contra a honra, seja por calúnia, difamação e injúria.

O cyberbullying possibilitou a edição da Lei 13.185, de 6 de novembro de 2015, que institui o Programa de Combate à Intimidação Sistemática (Bullying), à qual determina não apenas ao Estado ou às famílias, mas também às escolas, o dever de promover medidas de conscientização, prevenção, diagnóstico e combate à violência e à intimidação sistemática, pessoal ou virtualmente.

Mesmo que seu filho não esteja sofrendo esse tipo de insulto, é importante saber que os pais e as instituições também respondem criminalmente pelos menores que cometem o bullying/cyberbullying, podendo gerar indenizações civis, bem como punição através de medidas socioeducativas, previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/90).

De acordo com algumas pesquisas, os principais alvos são geralmente pessoas muito introvertidas, ou demasiadamente extrovertidas e populares, ou seja, os dois extremos. Contudo, muitas situações podem ocorrer através de hackers que invadem as suas mídias, contas, vídeos que costuma assistir, enviando mensagens, figuras, ou informações que possam suscitar um comportamento de medo, pânico, intimidação, já que aparecem aleatoriamente conforme pesquisamos conteúdos na internet ou nos cadastramos em alguns grupos virtuais.

Infelizmente, o espaço virtual convida à participação de diversas comunidades que podem adotar um discurso de ódio, que também podem ser comparados ao fenômeno do cyberbulllying, já que também incita violência, intimidação, risco de envio de malware, invasão de privacidade, dentre outros prejuízos.

De acordo com o site da internetsegura.pt, existem algumas redes sociais/aplicações que foram sinalizadas como propícias ao Cyberbullying, que permitem o anonimato, como é o caso do Ask.FM e Snapchat. A Safernet, uma das entidades referência no Brasil no enfrentamento deste tipo de violação, já firmou acordos de cooperação com o Ministério Público Federal a fim de coibir, identificar e responsabilizar os autores que fazem o uso indevido da internet, através de denúncias, que também podem ser feitas em anonimato. Só acessar o site: https://new.safernet.org.br/

A tragédia na Escola Raul Brasil, ocorrida no dia 13/03/2019, trouxe à tona a importância de uma campanha intensa de proteção às crianças e adolescentes no combate ao bullying e cyberbullying, no intuito de promover paz nas unidades escolares municipais. Em defesa, a prefeitura de Anápolis, por meio da Secretaria Municipal de Educação, informou que, desde 2017, realizam campanhas preventivas, por meio de materiais de conscientização e projetos pedagógicos.

Atualmente podemos ver diversos boatos e suspeitas de invasão da Momo, embora sem nenhuma evidência de que essas invasões estão ocorrendo no YouTubeKids, mas através de mensagens no WhatsApp, portanto, tenha cautela, denuncie ou bloqueie contatos desconhecidos da sua lista. Caso receba algum conteúdo que possa ameaçar a segurança de seus filhos, oriente e solicite que eles mostrem para você qualquer imagem, texto ou vídeo que possa intimidar, ameaçar, amedrontar ou induzir à violência.

Como exemplo, temos o jogo da “Baleia Azul” e a série “13 Reasons Why”, da Netflix, que foram altamente criticados por suposto incentivo ao suicídio entre adolescentes. Agora, a vilã da atualidade é a Momo, uma personagem tirada de uma obra de arte, que foi personificada, tendo grande repercussão nas redes sociais, que não passa de mais uma personagem falsa, escondida atrás de “alguma (s) pessoa (s) anônima (S) que praticam o cyberbullying pelo WhatsApp.

Segundo o SAP (Serviço de Atendimento Psicológico): “A Momo evidencia a vulnerabilidade que ficam sujeitos os usuários de internet, especialmente quando são crianças e jovens. Trata-se de bullying virtual e acarreta efeitos psicológicos e/ou físicos para a vítima, colocando-a em situação de ansiedade constante, afeta sua autoestima e pode levar à depressão”.

Outro cuidado que devemos tomar é o de não compartilhar esse tipo de material, pois mesmo quem não publica e faz a ofensa direta, pode ter que pagar uma indenização. Portanto, evite compartilhar e comprar brigas sem saber realmente do que se trata!!!

A internet é uma ferramenta, assim como o martelo, pode-se usar para bater em um prego, ou machucar alguém, depende apenas do indivíduo que está por trás dela…oriente seu(sua) filho(a) a usá-la para o bem!!! O uso indevido desse instrumento pode gerar efeitos negativos, porém com uma rapidez e adesão imensurável, causando, na maioria das vezes, prejuízos em larga escala. Entretanto, não podemos negar os diversos benefícios do mundo digital e virtual, com ressalvas quando o uso desses canais pelas crianças e adolescentes não possuem uma orientação de um responsável, podendo potencializar problemas que já existiam na vida offline.

A tendência é surgir cada vez mais personagens e grupos com intenção de hostilizar, amedrontar e incentivar atos contra si e contra terceiros… é preciso identificar e denunciar!!!
Portanto, diante de toda essa invasão cibernética, é imprescindível que pais orientem e falem claramente sobre os riscos com seus filhos e façam uma supervisão moderada dos conteúdos acessados por eles. O fato de serem menores de idade não impede você do direito de verificar e orientar, já que sabemos que os pais/responsáveis respondem juridicamente e criminalmente por eles.

A legislação brasileira, em especial a Constituição Federal, o Código Civil e o Estatuto da Criança e do Adolescente delegam aos pais o dever de zelo e assistência de seus filhos. Porém, é importante deixar claro a intenção, para que seus filhos vejam sua atitude como proteção e não como mera invasão de privacidade. Reforçando, quando a criança é de menor e os pais respondem pelos seus atos, essa supervisão de conteúdos acessados não é considerada invasão de privacidade, contudo, como psicóloga, sugiro que converse com seu filho e explique a importância de você estar supervisionando os seus movimentos nas redes sociais e os perigos que elas podem oferecer.

Oriente seus filhos, instruindo como evitar ser vítima do cyberbullying: instrua a não partilhar informações pessoais e íntimas com desconhecidos, a não dar sua senha nem para o(a) melhor amigo(a), a mudar eventualmente a senha ou conta de e-mail quando suspeitar de algo, a guardar todos os registros das mensagens que recebe, a não aceitar pedidos de amizades de desconhecidos, a modificar o estado dos seus perfis para privados e se receber alguma ameaça de ódio ou que o deixe desconfortável, peça para ele(a) mostrar e falar com um adulto de confiança, porém é preciso que também o oriente a NÃO revidar a ofensa, até resolver o que será feito à respeito e em caso de receber algum vídeo que coloque algum conhecido ou pessoa em situação desconfortável, não compartilhar, pois estará sendo cúmplice.

Não espere, denuncie! Quanto mais demorar para tomar uma atitude, pior será a consequência para quem sofre…
Infelizmente, a educação e punição sobre esses crimes vem através do bolso, através da restituição moral do dano e cabe a nós não ficarmos passivos diante desses fatos.

Esse tema ainda gera muitas polêmicas e são consequências do impacto do avanço tecnológico na nossa vida social, que ainda não estamos prontos para erradicá-lo. De acordo com diversos estudos, as vítimas podem ter mais chances de desenvolverem transtornos de humor, transtornos alimentares, distúrbios de sono ou/e transtornos de ansiedade em algum momento da vida.

Cunha, em 2009, através de pesquisa, conseguiu investigar 849 estudantes, em torno dos 14 anos de idade, na intenção de relacionar o bullying e os efeitos na saúde psicossocial. Conseguiu identificar relações entre o bullying e comportamentos antissociais, depressão e práticas parentais inadequadas. Além disso ficou evidente nesse estudo que as práticas parentais autoritárias e com punição física são fatores de risco para a agressividade, porém o suporte emocional e social dos pais tornam-se um fator de proteção para esses adolescentes.

(Cunha, J. M. (2009). Violência interpessoal em escolas no Brasil: Características e correlatos (Dissertação de mestrado não publicada, Programa de Pós – Graduação em Educação, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, PR, Brasil)

Sinais e sintomas possíveis para serem observados em crianças/adolescentes alvos de bullying:

  • enurese noturna (urinar na cama);
  • distúrbios do sono (como insônia);
  • problemas de estômago;
  • dores e marcas de ferimentos;
  • síndrome do intestino irritável;
  • transtornos alimentares;
  • isolamento social/ poucos ou nenhum amigo;
  • tentativas de suicídio;
  • irritabilidade/agressividade;
  • transtornos de ansiedade;
  • depressão maior;
  • relatos de medo regulares;
  • resistência/aversão a ir à escola;
  • demonstrações constantes de tristeza;
  • mau rendimento escolar;
  • atos deliberados de autoagressão.

Se seu filho estiver com alguns desses sintomas, procure um profissional.

Enfim, acredito que essas informações podem ser úteis, sempre lembrando que esse texto é informativo e deve-se procurar um advogado para auxiliar nas questões jurídicas, já para os efeitos emocionais, consulte um psicólogo de sua confiança.

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