Posvenção em suicídio: Cuidando da dor dos sobreviventes

Quando acontece um suicídio, muitas pessoas são por ele impactadas. Dados da American Foundation Suicide Prevention (AFSP, 2011), apontam que ao longo de sua existência 20% da população pode passar por um suicídio na família, assim, é importante refletirmos a respeito das ações necessárias em termos de cuidado e acolhimento aos que ficam. Para tanto, devemos compreender alguns conceitos importantes, como é o caso da posvenção.

O conceito de posvenção foi desenvolvido por Shneidman (1973) e refere-se ao cuidado sobreviventes enlutados por suicídio, ou seja, familiares, amigos, colegas e todos aqueles que foram afetados direta ou indiretamente por uma morte por suicídio. Portanto, trata-se de uma ferramenta de cuidado com saúde mental indispensável nesses casos. Para o autor, ações de posvenção também podem ser consideradas preventivas para as gerações futuras, visto que, além de promoverem um espaço de cuidado aos enlutados, podem ter a função de promover o acesso à informação, auxiliar na construção de diálogos sobre o tema e, consequentemente, contribuir para a diminuição do tabu em relação ao suicídio.

Dessa maneira, entendemos a posvenção como uma forma de ajuda logo após o suicídio, através de ações de suporte, intervenção e assistência, cujo objetivo é auxiliar os sobreviventes a lidarem com o luto e o trauma da morte de uma pessoa querida por suicídio, levando uma vida com mais qualidade e menos sofrimento.

Os serviços de posvenção podem estar disponíveis tanto na esfera pública quanto privada, no entanto, em nossa visão, pelo fato de o suicídio ser um problema de saúde pública, as ações de posvenção deveriam estar contempladas nas políticas publicas que tratam da questão, uma vez que indivíduos que vivenciaram um suicídio tem risco aumentado de se engajar em comportamentos semelhantes.

Atualmente, com o aumento dos casos de suicídio entre adolescentes no Brasil, temos observado muitas ações de posvenção acontecendo em escolas, por exemplo. Nesses casos, podem acontecer palestras, grupos de apoio e acolhimento pensados especificamente para dar voz aos alunos, funcionários e toda comunidade escolar.

Um outro tipo de ação nesse sentido, são os grupos para familiares enlutados,normalmente em formato aberto, com periodicidade mensal ou quinzenal e que podem ser conduzidos não apenas por profissionais, mas também por sobreviventes que se sentem seguros e tranquilos em acolher e auxiliar pessoas que estão vivendo uma situação semelhante. É importante ressaltar que esse tipo de grupo não tem caráter terapêutico, seu objetivo é acolher e cuidar dos sobreviventes enlutados promovendo um espaço de troca, escuta e acolhimento.

De acordo com Sacvacini (2011), sem ajuda apropriada, os sobreviventes podem vir a experienciar um luto traumático e complicado e os serviços de posvenção podem ser um caminho para se encontrar os cuidados especializados necessários para o manejo do processo de luto, o que também funcionará como um fator de proteção a esses sobreviventes enlutados.

Mesmo com o aumento dos casos de suicídio no país, os espaços de cuidado aos que ficam ainda são restritos e o tabu, a vergonha e o medo do julgamento, ou das perguntas inoportunas acerca das circunstâncias da morte, ainda impedem muitos sobreviventes de buscar ajuda, assim, compreendemos que um dos nossos deveres como profissionais de saúde em contato com demandas tão profundas, é nos engajarmos difundindo informações sobre prevenção e posvenção do suicídio, pois apenas assim será possível desconstruirmos os estigmas e julgamentos relacionados ao comportamento suicida como um todo e atuarmos como agentes de promoção de saúde, conscientização e cuidado.

Referências:

AFSP. (2011). After a Suicide: A Toolkit for Schools. Newton, MA: Educational
Development Center, Inc.

Scavacini, K. (2011). Suicide Survivors Support Services and Postvention Activities - The availability of services and an interventions plan in Brazil. (Dissertação de Mestrado em Saúde Pública), Karolinska Institutet, Stockholm.

Shneidman, E. (1973). Deaths of a man. New York: Quadrangle.

Um olhar atento ao risco de suicídio: intervenções preventivas

Com as atuais notícias e casos sobre o suicídio, precisamos ter um olhar atento aos sinais que as pessoas que estão ao nosso redor emitem diante dos seus dilemas e problemas. Muitas vezes os sinais e sintomas são claros, como: a depressão, ansiedade, luto, sendo sintomas que nos deixa em alerta diante do sofrimento do próximo, mas não só esses.

Vemos atitudes, comportamentos, ideias, que muitas vezes aparecem de forma sutil. Em uma conversa entendemos que aquela pessoa pensa em suicídio, pensa em formas e até planejam formalizar essa ideia.

Hoje falar sobre o suicídio, seus fatores de risco e de proteção tem tomado mais espaço nas mídias, em filmes, séries e noticiários, mais será que é o suficiente?

Diante dos estudos realizados pela OMS, vemos que uma a cada dez tentativas de suicídio, é fatal, ocorrendo uma morte precoce, triste, devastando uma família que fica sem entender o que aconteceu. De fato é um problema de saúde pública que precisa ser olhado de forma multidisciplinar, pois, mesmo com o aumento do número de óbitos por suicídio no Brasil, não temos politicas de prevenção em nível nacional, sendo assim, precisamos cuidar de um a um que precisam de cuidados e direcionamento para passar por esse momento onde aliviar o sofrimento é o que a pessoa mais deseja.

Entre as 4 maiores causas de morte de adolescentes e jovens na faixa etária de 15 a 29 anos, está o suicídio. É um dado alarmante que infelizmente vem aumentando e entendemos que muitas mortes não são validas como suicídio, por não terem provas concretas ou pelo pedido da família em não aceitar essa atitude de seu familiar.

Por tanto, temos que ter um olhar atento para nossos adolescentes e jovens, que estão sendo mais alcançados por essa alternativa de eliminar o sofrimento.

Prevenção: o que podemos fazer

Como fatores de proteção, sempre vou frisar que falar é a melhor opção sempre e diante disso falo tanto para familiares, amigos e profissionais que muitas vezes percebem esses sutis sinais, mas não tem coragem de tocar nesse assunto, pois ainda sendo considerado um tabu, muitas vezes quem está próximo não tem coragem de perguntar sobre ideias de suicídio que as pessoas podem ter, então falar é a melhor opção, perguntar, questionar, conversar com quem você acha que esta em risco.

E falo isso também para quem está sofrendo, quem está pensando em suicídio como única alternativa e como psicóloga, posso garantir que não é a única opção, na verdade não é OPÇÃO, a opção é falar sobre a dor, o desespero, a angústia, encarar esse momento difícil, aprender a ressignificar esses sentimentos, lembranças, percas e vencê-los.

A dificuldade do indivíduo em encontrar alternativas para seus problemas não pode incapacitá-lo, por isso podemos ajudá-los a sair do fundo do poço.

Os adolescentes e jovens estão na categoria de maior risco e diante de todas as transformações e desafios dessa fase da vida, eles muita necessidade em falar, embora muitos sejam tímidos, sutilmente vão abrindo espaço para se manifestar, por tanto, a interação com o outro é vital.

Intervenções Preventivas

– Necessidade de apoio e atenção para se sentirem seguros: O primeiro grande ambiente que precisamos nos sentir seguros é em nossa família. Começamos a nossa formação com os pais ou cuidadores e é nesse contexto que precisamos achar um refúgio, um espaço de diálogo e confiança. Que possa haver um bom relacionamento familiar.

– Possibilidade de poder falar sobre o que pensa e sente: Com a família, amigos, professores, profissionais, precisa existir alguém que possa ouvir e não julgar essa pessoa pela dor que é sentida nesse momento, pois, nada é simples e fácil de ser resolvido para quem vem cultivando e convivendo com a angústia diariamente. Que possamos ser um canal de confiança para quem precisa ser ouvido.

– Boas habilidades: quais são as habilidades que essa pessoa têm? Muitas vezes o sofrimento está tão nebuloso, que fica difícil ver o que é bom. Mostre o que você enxerga de bom nessa pessoa, quais são os talentos, aptidões. Relembre o que é bom.

– Confiança em sim mesmo, em suas conquistas e situação atual: Incentivar a valorização de sua história, atitude fundamental para construção de um futuro satisfatório.

– Capacidade de procurar ajuda quando surgem dificuldades: Ser um canal aberto para o diálogo, saber ouvir quem está em sofrimento, sem julgamento, pré-conceitos, apenas ouvir, acolher, entender quais são as ideias e angústias.

– Interação social: Estimule essa pessoa a praticar esportes, fazer cursos, frequentar clubes, estar com pessoas, ter amigos. A interação com outras pessoas faz que com pensamos em outras coisas, falamos sobre outros assuntos e assim deixamos de lado pensamentos negativos e conseguimos olhar com mais clareza para as dificuldades.

– Bom relacionamento com adultos: ter um relacionamento positivo com adultos, pais, autoridades é positivo e devemos sempre incentivar essa relação.

– Bom controle emocional: Encoraje quem está em sofrimento a falar dos seus sentimentos, nada é bobagem, nada é simples e sem importância. Tudo para aquela pessoa tem um peso e deve ser levado em consideração. Precisamos ser empáticos, nos colocando no lugar do outro para assim termos uma escuta mais assertiva e ajudar quando for necessário.

– Amem: Sentir-nos amados, faz um bem incrível, mudanças significantes são perceptíveis em pessoas que se sentem amadas e as que não se sentem amadas, então sempre demostre seu amor, carinho e preocupação por quem está a sua volta. Isso gera segurança, confiança e promove saúde.

– Tome atitudes: É muito importante amar quem está em sofrimento, mas muitas vezes não é suficiente proporcionar um ambiente para comunicação, acolhimento e confiança, é preciso tomar atitudes. Então não guarde segredos, procure ajuda, envolva outras pessoas e profissionais, tenha sempre em mente que é um momento grave e que podemos sim fazer intervenções, mas que pode não ser suficiente, por isso procure ajuda e procure um profissional.

A prioridade precisa ser sempre a prevenção e reconhecer que o indivíduo está em sofrimento e / ou com risco aumentado de suicídio, sendo assim, proporcione ajuda, alivio e ajude a pensar em novos caminhos e soluções.

Referências

Conselho Federal de Medicina (CFM); Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Suicídio: informando para prevenir. Brasília, 2014.

Esteves de Vasconcelos, M. J. (2002). Pensamento sistêmico: novo paradigma da ciência. Campinas: Papirus.

Meneghel SN, Victora CG, Faria NMX, Carvalho LA, Falk JW. Características epidemiológicas do suicídio no Rio Grande do Sul. Rev Saúde Publica. 2004;38(6):804-10.

Volpe, F.M.; Corrêa, H.; Barrero, S. P. Epidemiologia do suicídio. In: ed(s) Corrêa, H.; Barrero, S. P. Suicídio: uma morte evitável. São Paulo: Editora Atheneu, 2006.

Suicídio: Sinais de alerta

Suicídio… mais do que um gesto que cala é um gesto que fala.
Lilian Meyer Frazão

O aumento do número de suicídios no Brasil e no mundo nos fala sobre a urgência em nos mobilizarmos enquanto profissionais, pais, mães, tios, professores e amigos para tentar reverter essa epidemia silenciosa. Esse é um problema de todas as famílias. Há pesquisas que indicam que um suicídio afeta diretamente outras 6 ou 7 pessoas.

O suicídio esteve presente em toda a história da humanidade e em todas as culturas. O primeiro registro que se tem é na cidade de Ur há 2.500 a.C, onde um grupo de doze pessoas ingeriu uma bebida envenenada.

Trata-se então de um fenômeno humano tão antigo e complexo quanto o tabu e o preconceito gerados em torno deste tema. Tema que, ainda, não se faz tão presente nos cursos de formação de profissionais da área da saúde e psicólogos, e por esta razão não há adequada instrumentalização desses profissionais para lidar com este fenômeno.

Provavelmente a dificuldade em se falar abertamente sobre o assunto seja consequência dos erros e preconceitos que vem sendo repetidos historicamente e contribuindo para estigmatizar a doença mental e o comportamento suicida. Esse estigma leva pessoas a se sentirem envergonhadas, excluídas e discriminadas e isso as impede, muitas vezes, de procurar ajuda

Durante séculos da nossa história por razões morais, culturais e religiosas o suicídio foi considerado pecado, talvez o pior pecado. Para que consigamos mudar este curso é preciso desconstruir alguns mitos e construir ações de prevenção, acolhimento e empatia.

Mito: o suicídio é uma decisão, cada um tem pleno direito de exercer o seu livre arbítrio.

Não é verdadeiro, pessoas que pensam em suicídio estão, na maioria dos casos, passando por doenças mentais que alteram a própria percepção e a capacidade de tomada de decisão.

Mito: uma pessoa que já pensou em suicídio estará para sempre em risco.

Não é verdade, os fatores que a levaram a pensar nessa possibilidade podem ser tratados e ela nunca mais estará em risco.

Mito: as pessoas que ameaçam se matar jamais o farão, só querem chamar a atenção.

Novamente, não é verdade. Antes de consumar o ato as pessoas dão diversos sinais, a maioria fala em suicídio, fala sobre as ideias de morte. Boa parte das pessoas que se mataram expressou para um profissional da saúde o seu desejo.

Mito: uma pessoa deprimida que pensava em suicidar, apresenta uma melhora, isso significa que ela já não está mais em risco.

Não é verdade, isso apenas pode significar que ela já tomou sua decisão, já tem planos e que está se sentindo aliviada por isto.

Mito: após a tentativa interrompida de suicídio o indivíduo apresenta melhora e portanto não está mais sob risco.

Não é verdade, um dos períodos mais perigosos é quando se está na fase de recuperação da crise, ou quando ainda se está no hospital. As semanas após a alta são os períodos de maior fragilidade.

Mito: não devemos falar sobre suicídio pois isso pode aumentar o risco.

Não é real, falar sobre o assunto com alguém pode diminuir a angústia e a tensão. É exatamente o contrário, expressar as ideias sobre a morte e ser acolhido pode fazer a diferença na vida de uma pessoa.

Mito: a mídia não deve abordar o tema suicídio, pois isso pode influenciar alguém a querer se matar.

É exatamente o oposto que é esperado. Cabe à mídia, informar a população adequadamente, com informações verdadeiras, desmistificando e desconstruindo mitos e preconceitos. Divulgar os locais onde as pessoas podem procurar ajuda, é responsabilidade social. O que não deve ser feito é divulgar fotos, vídeos, cartas de suicidas. Não informar detalhes específicos da morte por suicídio, meios letais utilizados. Não tratar do assunto de forma romantizada, não transformar o acontecimento num espetáculo, principalmente no caso de pessoas famosas. Não fornecer explicações simplistas para o acontecido, não tentar apontar culpados, não usar estereótipos religiosos ou culturais para explicar a atitude da pessoa. Não glorificar o suicídio ou fazer sensacionalismo sobre o caso. Cabe a todos nós enquanto cidadãos e, não só à mídia, tratar do assunto com respeito e seriedade.

O Ministério da Saúde lançou a Agenda Estratégica de Prevenção ao Suicídio, cuja meta é reduzir em 10 por cento a mortalidade por suicídio até 2020. No ano de 2017 o Sistema de Informação sobre Mortalidade divulgou que 11 mil pessoas, em média, tiram a própria vida por ano no Brasil. Divulgou também que esta é a quarta maior causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos, sendo a terceira maior causa entre os homens e a oitava maior causa entre as mulheres.

Com base nesta meta algumas ações de prevenção estão previstas, entre elas, destaco:

  • Ampliação do acordo de Cooperação técnica do CVV, Centro de Valorização da Vida
  • Documento inédito para orientar jornalistas, visando evitar o efeito Werther, a forma como o suicídio é divulgado pode levar a outros casos. Consta nesse documento o pedido de não noticiar o suicídio em primeira página, não publicar fotos, não utilizar a palavra suicídio no título, não divulgar o local, o método, os bilhetes e cartas, não apresentar causas únicas, não falar em “tentativa bem sucedida” ou em êxito.
  • Sempre informar telefones úteis, locais onde é possível buscar ajuda. Divulgar os sinais de alerta e sempre utilizar linguagem adequada
  • Distribuição de materiais para a população com foco na identificação dos sinais de alerta e do que fazer e não fazer diante de uma pessoa em risco
  • Distribuição de materiais para profissionais de saúde e gestores com foco na importância de notificação compulsória da tentativa de suicídio em até 24 horas e informações técnicas sobre acolhimento, encaminhamento responsável e articulação de rede.

A partir de então, somos todos agentes na prevenção ao suicídio, com a informação correta, adequada e cientes dos principais sinais de alerta, não poderemos prever e evitar todos os suicídios, mas salvaremos muitas vidas. Através do nosso olhar e da disseminação de conteúdo bom e de qualidade para instrumentalizar as famílias e a comunidade para que consigam reconhecer quando alguém está em risco e que tenham acesso aos locais onde possam encaminhar as pessoas para serem acolhidas e tratadas.

Os dois principais fatores de risco para o suicídio são:

1- Tentativa prévia de suicídio

Ter havido uma tentativa prévia aumenta em cinco a seis vezes o risco. Aproximadamente 50% das pessoas que se suicidaram, já haviam tentado pelo uma vez.

2- Doença mental

Sabe-se que a grande maioria das pessoas que tem comportamento suicida tem uma doença mental, muitas vezes não diagnosticada, ou não tratada, ou ainda não tratada adequadamente. Estima-se algo em torno de 90 por cento dos casos. Dentre os transtornos psíquicos mais comuns estão a depressão e o transtorno afetivo bipolar, abuso/dependência de álcool ou drogas, esquizofrenia, transtorno de personalidade (especialmente borderline). Pessoas com múltiplas comorbidades (ocorrência de mais de um transtorno mental) também têm risco aumentado.

Outros fatores de risco:

Os três D`s, Desesperança/Desespero/Desamparo e a Impulsividade
São sentimentos fortemente associados ao suicídio. É preciso estar atento, pois a desesperança pode persistir mesmo após a remissão de outros sintomas depressivos.

A impulsividade, presente, principalmente, no comportamento dos jovens e adolescentes. A combinação de desesperança, impulsividade e abuso de substâncias aumenta o risco significativamente.

A idade
O suicídio entre os jovens aumentou em todo o mundo nas últimas décadas.

O comportamento suicida entre jovens e adolescentes envolve motivações complexas, incluindo humor depressivo, abuso de substâncias, problemas emocionais, familiares e sociais. Histórico de transtornos psiquiátricos na família, rejeição familiar, negligência e também a ocorrência de abuso físico e/ou sexual na infância.

O suicídio também é mais presente entre os idosos devido a fatores como: perda de familiares, principalmente do cônjuge. Existência de doenças degenerativas e dolorosas, sensação de ser inútil e de dar muito trabalho à família.

Gênero
Os óbitos por suicídio são três vezes mais frequentes entre homens do que entre mulheres. Em contrapartida as tentativas de suicídio são mais frequentes entre as mulheres. Estereótipos de papeis masculinos reforçam a questão de maior força, independência e comportamento de risco o que pode estar associado ao fato de homens não procurarem ajuda em casos de depressão e comportamento suicida.

Nos homens o isolamento e a solidão são os principais fatores associados ao suicídio enquanto as mulheres conseguem manter uma rede social de proteção mais forte, e se engajam em trabalhos domésticos e comunitários, o que lhes proporciona um sentido de participação e pertencimento até o final da vida.

Muitas evidências apontam que questões de identidade de gênero ou de identidade sexual aumentam o risco para suicídio.

Doenças clínicas
Pacientes com doenças crônicas, tais como HIV, câncer, esclerose múltipla, doença de Parkinson, lúpus eritematoso sistêmico, doença pulmonar obstrutiva, doenças cardiovasculares elevam o risco de suicídio quando as mesmas não respondem ao tratamento ou nos primeiros meses após o diagnóstico.

Pacientes com doenças crônicas apresentam comorbidades com doenças psiquiátricas, com taxas que variam entre 52 e 88 por cento. Faz-se necessário investigar sintomas depressivos e comportamentos suicidas diante desta população.

Eventos adversos na infância e adolescência
Maus tratos, abuso físico e sexual, divórcio dos pais, transtorno psiquiátrico familiar entre outros fatores. Pais, médicos, professores, devem estar atentos ao abuso e a dependência de substâncias, ao desempenho escolar, aos conflitos familiares, à incerteza quanto à orientação sexual, à ideação suicida, aos sentimentos de desesperança.

Outro fator de risco é a perdas de alguém importante ou conhecido por suicídio. Existe também o fenômeno dos suicídios coletivos e comunidades virtuais ou não, que incitam essa prática.

Histórico Familiar ou Genética
Estudos de genética epidemiológica apontam que há componentes genéticos, assim como, componentes ambientais envolvidos para que haja aumento na taxa de suicídio entre aqueles que tem histórico na família.

Fatores Sociais
Desempregados com problemas financeiros ou trabalhadores não qualificados também apresentam maior risco. Períodos de recessão econômica, principalmente nos três primeiros meses após mudança de situação financeira ou desemprego.

Quanto menor for a rede social de apoio do indivíduo maiores são as chances de o suicídio ser visto como solução. Viver sozinho aumenta o risco. Atenção às pessoas que migram, pois são privadas de suas redes de apoio.

A ocupação profissional não é encontrada como fator de risco, mas sabemos que há profissões mais estressantes e que a exposição constante ao stress pode ser um fator de risco aumentado. Pesquisas nos Estados Unidos apontam que a influência do local de trabalho em casos de suicídio pode ser maior do que pensávamos, até então.

De acordo com um levantamento publicado no Journal of Preventive Medicine, entre 2003 e 2010 mais de 1,7 mil pessoas tiraram a vida no local de trabalho. Apontam que policiais, bombeiros agricultores, médicos e soldados estão mais suscetíveis. Pesquisadores acreditam que o acesso fácil a meios letais como armas e drogas e também fatores estressantes e econômicos sejam a explicação mais provável para entender essa relação entre suicídio e local do trabalho.

Além de conhecer os fatores de risco é preciso ter em mente os fatores de proteção. Os fatores de proteção são os motivos pelos quais, apesar das adversidades vividas, a pessoa se manteria viva.

Uma boa avaliação deve considerar tanto fatores de risco, como fatores de proteção, e conhecer as formas de manejo e acolhimento do comportamento suicida, além, é claro, de saber os locais para onde essas pessoas possam ser encaminhadas para obter ajuda especializada.

Mesmo diante de todo este conhecimento, não podemos prever quem, quando e como uma pessoa tirará a própria vida. O suicídio é imprevisível, porém nosso papel é atuar na prevenção. Por isso todo paciente que fala em suicídio está em risco potencial sim e merece adequada investigação e acolhimento.

Alguns dos fatores protetores que devemos observar e investigar durante uma avaliação de risco são autoestima elevada, bom suporte familiar, laços sociais bem estabelecidos com amigos, familiares e amigos. Ter uma religião ou espiritualidade, ter criança em casa, senso de responsabilidade com a família. Gravidez desejada e planejada também são indicadores de que a pessoa tem razões para viver.

Faz-se necessário também entender como é a capacidade resolutiva, e como se dá a adaptação da pessoa frente às crises, como atravessou crises anteriores, se houve adaptação positiva ao longo da sua história de vida.

Esses fatores não impedem ou atenuam os riscos de suicídio, apenas devem ser investigados e avaliados dentro de um contexto.

Um cuidado que devemos ter com fatores protetivos é para que estes não mascarem os fatores de risco durante uma avaliação.

A Organização Mundial da Saúde destaca três características psicológicas no comportamento dos suicidas:

Ambivalência, que pode ser entendida como o desejo de viver e morrer ao mesmo tempo. A pessoa necessita sair do sofrimento, ela quer acabar com a dor insuportável que está sentindo e não quer necessariamente morrer. O desejo é de matar a dor, de fugir do problema, de encontrar descanso e paz.

Impulsividade, mesmo o suicídio sendo detalhadamente planejado, na maior parte das vezes é impulsionado por eventos negativos ou por situações de rejeição, fracasso, falência, perdas, morte de ente querido. O impulso de tirar a própria vida é momentâneo, dura minutos ou horas. Se a pessoa for acolhida durante a crise, o suicídio pode ser interrompido.

Rigidez, a pessoa não consegue perceber outras maneiras de sair do problema, seus pensamentos, sentimentos e ações são restritos. Sozinha não consegue encontrar outras alternativas. A morte é vista como uma solução drástica de acabar com aquilo que consideram ser um sofrimento, inescapável (sem saída), interminável (sem fim) e intolerável (não suportam).

Apresento agora um Check List, que pode ser pano de fundo para avaliação de risco num primeiro contato com o paciente:

  • Presença de doença mental
  • Histórico familiar de suicídio
  • Ideação suicida (pensamentos de morte, planos, acesso fácil a meios letais)
  • Os três D’s Desamparo, Desesperança, Desespero
  • Características da personalidade (resiliência, tolerância à dor, como reage às adversidades, impulsividade, agressividade, como julga a realidade)
  • Fatores estressores crônicos e recentes (migração, separação conjugal, perda de familiares, amigos)
  • Estressores considerados socialmente humilhantes (falência, desemprego, prisão, traição)
  • Idade entre 15 e 30 anos (houve abuso sexual na infância, bullying, rejeição da família por ser homossexual ou transexual e ter se assumido recentemente)
  • Idade, acima de 65 anos (aposentado, viúvo(a), solteiro, explorar como está a rede de apoio)
  • Doenças clínicas crônicas, neurológicas, incapacitantes

As seis perguntas orientadoras e fundamentais que devem fazer parte de uma primeira avaliação de risco feita por um profissional da saúde:

Você tem planos para o futuro? O paciente responderá que não
A vida vale a pena ser vivida? Novamente a resposta será não
Se a morte viesse ela seria bem-vinda ? Desta vez a resposta será sim

Se as respostas forem as esperadas o profissional deverá partir para as próximas perguntas

Você está pensando em se machucar, se ferir, fazer mal a você ou morrer?
Você tem algum plano específico para morrer, se matar, tirar sua vida?
Você fez alguma tentativa de suicídio recentemente?

O processo de avaliação não termina com essas perguntas, elas são orientadoras e nos servem como um mapa do que devemos saber num primeiro contato e nem devem ser feitas exatamente como estão exemplificadas, mas sim através de um diálogo acolhedor. Todas as questões que foram abordadas como fatores de risco e fatores protetores devem ser exploradas pelo profissional que faz o primeiro atendimento ou por aquele para quem o paciente for encaminhado. Inclusive, a família deve ser incluída no processo, sempre que possível.

Todas essas informações se completam e fazem parte de um mesmo fenômeno, o suicídio. É assunto que não se esgota aqui, há muito o que se aprofundar neste tema. Há muito o que se fazer para promoção da qualidade de vida da nossa população. Basicamente podemos partir para prevenção cuidando e olhando mais para o tratamento das doenças psiquiátricas, tentando reduzir os meios de acesso aos métodos suicidas e vigilando para que toda e qualquer informação sobre o tema nos de comunicação de massa sejam adequadas.

No curso, Suicídio e Manejo do Comportamento Suicida, da professora Dra Karina Okajima Fukumitsu, foi apresentada uma lista de comportamentos verbais e não verbais que nos orientam como Sinais de Alerta, dentro de um contexto, associados aos fatores de risco, e à correta avaliação do profissional especializado. Acredito que esses sinais de alerta sejam muito úteis não só para profissionais, mas para a comunidade em geral.

SINAIS DE ALERTA COMPORTAMENTAIS DIRETOS

  • Tentativas de suicídio anteriores
  • Mudanças repentinas de comportamento
  • Ameaça de suicídio ou expressão/verbalização de intenso de morrer
  • Ter um planejamento para o suicídio
  • Sinais observáveis de depressão
  • Oscilação do humor
  • Pessimismo
  • Desesperança
  • Desamparo
  • Ansiedade, dor psíquica, estresse acentuado
  • Problemas associados ao sono (excessivo ou insônia)
  • Intensa raiva
  • Desejo de vingança
  • Sensação de estar preso e sem saída
  • Isolamento (família, amigos, eventos sociais)
  • Mudanças dramáticas de humor
  • Falta de sentido para viver
  • Aumento do uso de álcool e outras drogas
  • Impulsividade e interesse por situações de risco

SINAIS DE ALERTA COMPORTAMENTAIS INDIRETOS

  • Desfazer-se de objetos importantes
  • Conclusão de assuntos importantes
  • Fazer um testamento
  • Despedir-se de parentes e amigos
  • Casos extremos de irritabilidade, culpa e choro
  • Fazer carteira de doação de órgãos
  • Comprar armas, estocar comprimidos, etc
  • Fazer seguro de vida
  • Colocar coisas em ordem
  • Súbito interesse ou desinteresse em religião
  • Fechar a conta corrente

SINAIS DE ALERTA VERBAIS DIRETOS

  • Eu quero morrer
  • Gostaria de estar morto
  • Vou me matar
  • Se isso acontecer novamente prefiro estar morto
  • A morte poderá resolver essa situação
  • Se ele não me aceitar de volta, eu me matarei
  • Quero sumir. Não aguento mais! Só morrendo mesmo para aguentar

SINAIS DE ALERTA VERBAIS INDIRETOS

  • Se isso acontecer novamente, acabarei com tudo
  • Eu não consigo mais aguentar isso você sentirá saudades quando eu partir
  • Não estarei aqui quando você voltar estou cansado da vida. Não quero continuar
  • Tudo ficará melhor depois da minha partida
  • Não sou mais quem eu era
  • Logo você não precisara mais se preocupar comigo
  • Ninguém mais precisa de mim
  • Eu sou mesmo um fracassado e inútil. Tudo seria melhor sem mim.

Fonte: Este quadro é Material da aula: “Suicídio e Manejo do Comportamento Suicida” de Karina Okajima Fukumitsu, em 03/12/2018

Conforme orientação especial dada à mídia através do Plano Estratégico de Prevenção ao Suicídio, todo o texto divulgado sobre o assunto deve conter as informações sobre onde e como procurar ajuda.

Onde procurar ajuda em caso de suicídio ou ideação suicida:

  • Em caso de risco de suicídio iminente, ligar para 190 ou 192 e solicitar atendimento.
  • Você pode procurar um diretor/coordenador de escola, padre, assistente social, pastor, médico, enfermeiro, líder comunitário e pegar encaminhamentos e sugestões no seu local de residência ou trabalho.
  • CAPS e Unidades Básicas de Saúde (Saúde da família, Postos e Centros de Saúde).
  • UPA 24H, SAMU 192, Pronto Socorro; Hospitais
  • Centro de Valorização da Vida – 188 (ligação gratuita)

O CVV – Centro de Valorização da Vida realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo, por telefone, email, chat e voip 24 horas todos os dias.

A ligação para o CVV em parceria com o SUS, por meio do número 188, são gratuitas a partir de qualquer linha telefônica fixa ou celular.

Também é possível acessar www.cvv.org.br para chat, Skype, e-mail e mais informações sobre ligação gratuita.

Também é possível utilizar o atendimento por chat e e-mail disponível nos ícones abaixo.

Referências:

Suicídio: Informando para prevenir, Conselho Federal de Medicina(CFM)

Brasília, 2014

Coleção Guia de Referência Rápida

Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP)

Avaliação do Risco de Suicídio e sua Prevenção

Versão Profissional 1ª edição

SMS/RJ Secretaria Municipal de Saúde

Rio de janeiro

Fukumitsu, Karina Okajima

Suicídio e Gestalt Terapia. São Paulo: Editora Digital Publish & Print, 2012

Material do curso “Suicídio e Manejo do Comportamento Suicida”, ministrado por Karina Okajima Fukumitsu

Site: www.vitalere.com.br

Luto por suicídio e acolhimento aos enlutados

Como lidar com uma dor tão grande e com sentimentos de culpa, tristeza, raiva e uma infinidade de perguntas que nem sempre terão suas respostas esclarecidas?

Segundo a Associação Internacional de Prevenção ao Suicídio, cada morte por suicídio abala profundamente cerca de 5 a 10 pessoas e chega a afetar outras 135 pessoas, deixando-as psicologicamente vulneráveis.

Para Daniel Martins de Barros, psiquiatra do IPq-HC, a franqueza e a empatia no falar sobre o assunto são de extrema importância quando se trata de morte pelo suicídio,“É um momento de compartilhar a dor, oferecer o ombro e não evitar a pessoa enlutada.”

Muitas vezes quando sabemos de uma morte trágica nos afastamos e preferimos não falar nada com a pessoa enlutada, mas essa atitude é muito mais para evitar nossa própria dor frente à morte. Para a pessoa que está vivendo este sofrimento falar pode ser o único alívio “nenhuma dor diminui se você não tiver com quem falar sobre ela”. Todas as pessoas afetadas de alguma forma por uma morte pelo suicídio devem ter o direito de viver esse luto, diz o psiquiatra.

A nossa maior atenção deve ser pela compreensão do processo de luto pelo suicídio, que se dá de maneira diferente. Em seu livro “Crise suicida”, o Dr. Neury José Botega, psiquiatra e professor titular de Campinas, nos fala que: “o processo de luto que se segue a um suicídio costuma ser mais difícil e mais doloroso, tanto para familiares e amigos como para profissionais da saúde, pois combina sentimentos de tristeza e de raiva, este último em reação à violência imposta pelo suicídio”. O ente querido ora tão conhecido torna-se um desconhecido devido ao suicídio. O “pai herói” passa a ser o “pai que se matou” e assim o enlutado e todos os atingidos por esse verdadeiro “tsunami existencial” devem achar uma maneira de sobreviver a essa dor e ao choque desse acontecimento. Buscar um sentido é imprescindível para superar esse momento (Fukumitsu, 2013).

O luto pelo suicídio passa por varias fases, inicialmente pela fase do choque, onde as reações são de surpresa e espanto, depois vem a culpa, “como eu não percebi?”, “deveria ter feito alguma coisa”, “eu poderia ter evitado”, em seguida vem a raiva e os sentimentos de desamparo. É muito difícil aos enlutados suportar sentimentos de tristeza e vazio e a sensação de abandono e desamparo. Algumas pessoas, pela dificuldade em lidar com essa imensa tristeza e vazio, dão espaço a uma fase de agitação, dedicando-se exaustivamente a tarefas externas e aumentando assim a ansiedade.

Não é raro as pessoas simplesmente se calarem numa “tragédia silenciosa” frente ao estigma social, dificuldade de enfrentamento, vergonha e culpa , transformando o suicídio em uma dor que não pode ser compartilhada.

“Nenhuma dor diminui se você não tiver com quem falar sobre ela”
(Dr. Daniel Martins de Barros, psiquiatra do IPq-HC)

Damos o nome de posvenção às várias medidas oferecidas no sentido de favorecer a expressão de ideias e sentimentos relacionados ao trauma e à elaboração do luto. Neste sentido, a posvenção pode ser considerada um trabalho de prevenção, uma vez que parentes e amigos enlutados têm um risco maior do que o restante da população de cometer o suicídio.

Segundo a psicóloga suicidologista Karina Okajima Fukumitsu, “o trabalho de posvenção visa a um lugar onde a pessoa em processo de luto possa ser ouvida, respeitada e, principalmente, cuidada em seu sofrimento e forma de enfrentamento singular. Pretende-se auxiliar o enlutado a minimizar os impactos do suicídio e, sobretudo, proporcionar ao enlutado a ampliação de possibilidades para vislumbrar uma nova configuração, apesar das vivências confusas e que provocam mais dúvidas do que esclarecimentos”.

Os grupos de apoio, terapias voltadas à posvenção e também conversas com pessoas queridas, auxiliam na elaboração de um novo sentido e na aceitação de que sentimentos de raiva e culpa fazem parte desse processo de luto.

Os grupos de apoio, por meio de depoimentos, ajudam o enlutado a se dar conta de que muitas outras pessoas estão passando ou já passaram por momento semelhante, contribuindo para que se sinta acolhido e compreendido.

Assim, se você está passando por um momento como este ou conhece alguém que esteja precisando de cuidados, deixo abaixo links de grupos de apoio.

– O Centro de Valorização da Vida realiza apoio emocional e prevenção ao suicídio – ligue 188 atendimento 24 horas

– Instituto Vita Alere tem grupos de prevenção e posvenção do suicídio – ligue 50843568 – SP

Cyberbullying: O bullying além dos limites da internet

Na língua inglesa, bullying é um substantivo derivado do verbo bully, que significa “machucar ou ameaçar alguém mais fraco para forçá-lo a fazer algo que não quer”. São atos de violência física ou psicológica intencionais e repetidos, praticados por um indivíduo ou grupo de indivíduos, causando dor e angústia e sendo executadas dentro de uma relação desigual de poder.

Já o cyberbullying ocorre quando essa agressão é feita no ambiente digital (internet, redes sociais, sites, mensagens de texto, vídeos, entre outros), portanto, o agressor se utiliza do espaço virtual para intimidar, difamar, insultar, ameaçar, amedrontar, de forma covarde e recorrente, causando sofrimento, angústia e stress. Contudo, diferente do bullying, ao qual você sabe e conhece o agressor, no mundo virtual é mais fácil camuflar, pois o agressor pode ter os mais variados nomes, rostos e contas, já que costumam cadastrar diversos perfis falsos, tornando mais complicado identificar o infrator.

Para saber se é realmente bullying, ou cyberbullying, é preciso identificar qual o limite entre o brincar e o abuso. Constatado o abuso e a persistência da ofensa, de acordo com o capítulo V do Código Penal, esse comportamento é considerado um crime de ameaça contra a honra, seja por calúnia, difamação e injúria.

O cyberbullying possibilitou a edição da Lei 13.185, de 6 de novembro de 2015, que institui o Programa de Combate à Intimidação Sistemática (Bullying), à qual determina não apenas ao Estado ou às famílias, mas também às escolas, o dever de promover medidas de conscientização, prevenção, diagnóstico e combate à violência e à intimidação sistemática, pessoal ou virtualmente.

Mesmo que seu filho não esteja sofrendo esse tipo de insulto, é importante saber que os pais e as instituições também respondem criminalmente pelos menores que cometem o bullying/cyberbullying, podendo gerar indenizações civis, bem como punição através de medidas socioeducativas, previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/90).

De acordo com algumas pesquisas, os principais alvos são geralmente pessoas muito introvertidas, ou demasiadamente extrovertidas e populares, ou seja, os dois extremos. Contudo, muitas situações podem ocorrer através de hackers que invadem as suas mídias, contas, vídeos que costuma assistir, enviando mensagens, figuras, ou informações que possam suscitar um comportamento de medo, pânico, intimidação, já que aparecem aleatoriamente conforme pesquisamos conteúdos na internet ou nos cadastramos em alguns grupos virtuais.

Infelizmente, o espaço virtual convida à participação de diversas comunidades que podem adotar um discurso de ódio, que também podem ser comparados ao fenômeno do cyberbulllying, já que também incita violência, intimidação, risco de envio de malware, invasão de privacidade, dentre outros prejuízos.

De acordo com o site da internetsegura.pt, existem algumas redes sociais/aplicações que foram sinalizadas como propícias ao Cyberbullying, que permitem o anonimato, como é o caso do Ask.FM e Snapchat. A Safernet, uma das entidades referência no Brasil no enfrentamento deste tipo de violação, já firmou acordos de cooperação com o Ministério Público Federal a fim de coibir, identificar e responsabilizar os autores que fazem o uso indevido da internet, através de denúncias, que também podem ser feitas em anonimato. Só acessar o site: https://new.safernet.org.br/

A tragédia na Escola Raul Brasil, ocorrida no dia 13/03/2019, trouxe à tona a importância de uma campanha intensa de proteção às crianças e adolescentes no combate ao bullying e cyberbullying, no intuito de promover paz nas unidades escolares municipais. Em defesa, a prefeitura de Anápolis, por meio da Secretaria Municipal de Educação, informou que, desde 2017, realizam campanhas preventivas, por meio de materiais de conscientização e projetos pedagógicos.

Atualmente podemos ver diversos boatos e suspeitas de invasão da Momo, embora sem nenhuma evidência de que essas invasões estão ocorrendo no YouTubeKids, mas através de mensagens no WhatsApp, portanto, tenha cautela, denuncie ou bloqueie contatos desconhecidos da sua lista. Caso receba algum conteúdo que possa ameaçar a segurança de seus filhos, oriente e solicite que eles mostrem para você qualquer imagem, texto ou vídeo que possa intimidar, ameaçar, amedrontar ou induzir à violência.

Como exemplo, temos o jogo da “Baleia Azul” e a série “13 Reasons Why”, da Netflix, que foram altamente criticados por suposto incentivo ao suicídio entre adolescentes. Agora, a vilã da atualidade é a Momo, uma personagem tirada de uma obra de arte, que foi personificada, tendo grande repercussão nas redes sociais, que não passa de mais uma personagem falsa, escondida atrás de “alguma (s) pessoa (s) anônima (S) que praticam o cyberbullying pelo WhatsApp.

Segundo o SAP (Serviço de Atendimento Psicológico): “A Momo evidencia a vulnerabilidade que ficam sujeitos os usuários de internet, especialmente quando são crianças e jovens. Trata-se de bullying virtual e acarreta efeitos psicológicos e/ou físicos para a vítima, colocando-a em situação de ansiedade constante, afeta sua autoestima e pode levar à depressão”.

Outro cuidado que devemos tomar é o de não compartilhar esse tipo de material, pois mesmo quem não publica e faz a ofensa direta, pode ter que pagar uma indenização. Portanto, evite compartilhar e comprar brigas sem saber realmente do que se trata!!!

A internet é uma ferramenta, assim como o martelo, pode-se usar para bater em um prego, ou machucar alguém, depende apenas do indivíduo que está por trás dela…oriente seu(sua) filho(a) a usá-la para o bem!!! O uso indevido desse instrumento pode gerar efeitos negativos, porém com uma rapidez e adesão imensurável, causando, na maioria das vezes, prejuízos em larga escala. Entretanto, não podemos negar os diversos benefícios do mundo digital e virtual, com ressalvas quando o uso desses canais pelas crianças e adolescentes não possuem uma orientação de um responsável, podendo potencializar problemas que já existiam na vida offline.

A tendência é surgir cada vez mais personagens e grupos com intenção de hostilizar, amedrontar e incentivar atos contra si e contra terceiros… é preciso identificar e denunciar!!!
Portanto, diante de toda essa invasão cibernética, é imprescindível que pais orientem e falem claramente sobre os riscos com seus filhos e façam uma supervisão moderada dos conteúdos acessados por eles. O fato de serem menores de idade não impede você do direito de verificar e orientar, já que sabemos que os pais/responsáveis respondem juridicamente e criminalmente por eles.

A legislação brasileira, em especial a Constituição Federal, o Código Civil e o Estatuto da Criança e do Adolescente delegam aos pais o dever de zelo e assistência de seus filhos. Porém, é importante deixar claro a intenção, para que seus filhos vejam sua atitude como proteção e não como mera invasão de privacidade. Reforçando, quando a criança é de menor e os pais respondem pelos seus atos, essa supervisão de conteúdos acessados não é considerada invasão de privacidade, contudo, como psicóloga, sugiro que converse com seu filho e explique a importância de você estar supervisionando os seus movimentos nas redes sociais e os perigos que elas podem oferecer.

Oriente seus filhos, instruindo como evitar ser vítima do cyberbullying: instrua a não partilhar informações pessoais e íntimas com desconhecidos, a não dar sua senha nem para o(a) melhor amigo(a), a mudar eventualmente a senha ou conta de e-mail quando suspeitar de algo, a guardar todos os registros das mensagens que recebe, a não aceitar pedidos de amizades de desconhecidos, a modificar o estado dos seus perfis para privados e se receber alguma ameaça de ódio ou que o deixe desconfortável, peça para ele(a) mostrar e falar com um adulto de confiança, porém é preciso que também o oriente a NÃO revidar a ofensa, até resolver o que será feito à respeito e em caso de receber algum vídeo que coloque algum conhecido ou pessoa em situação desconfortável, não compartilhar, pois estará sendo cúmplice.

Não espere, denuncie! Quanto mais demorar para tomar uma atitude, pior será a consequência para quem sofre…
Infelizmente, a educação e punição sobre esses crimes vem através do bolso, através da restituição moral do dano e cabe a nós não ficarmos passivos diante desses fatos.

Esse tema ainda gera muitas polêmicas e são consequências do impacto do avanço tecnológico na nossa vida social, que ainda não estamos prontos para erradicá-lo. De acordo com diversos estudos, as vítimas podem ter mais chances de desenvolverem transtornos de humor, transtornos alimentares, distúrbios de sono ou/e transtornos de ansiedade em algum momento da vida.

Cunha, em 2009, através de pesquisa, conseguiu investigar 849 estudantes, em torno dos 14 anos de idade, na intenção de relacionar o bullying e os efeitos na saúde psicossocial. Conseguiu identificar relações entre o bullying e comportamentos antissociais, depressão e práticas parentais inadequadas. Além disso ficou evidente nesse estudo que as práticas parentais autoritárias e com punição física são fatores de risco para a agressividade, porém o suporte emocional e social dos pais tornam-se um fator de proteção para esses adolescentes.

(Cunha, J. M. (2009). Violência interpessoal em escolas no Brasil: Características e correlatos (Dissertação de mestrado não publicada, Programa de Pós – Graduação em Educação, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, PR, Brasil)

Sinais e sintomas possíveis para serem observados em crianças/adolescentes alvos de bullying:

  • enurese noturna (urinar na cama);
  • distúrbios do sono (como insônia);
  • problemas de estômago;
  • dores e marcas de ferimentos;
  • síndrome do intestino irritável;
  • transtornos alimentares;
  • isolamento social/ poucos ou nenhum amigo;
  • tentativas de suicídio;
  • irritabilidade/agressividade;
  • transtornos de ansiedade;
  • depressão maior;
  • relatos de medo regulares;
  • resistência/aversão a ir à escola;
  • demonstrações constantes de tristeza;
  • mau rendimento escolar;
  • atos deliberados de autoagressão.

Se seu filho estiver com alguns desses sintomas, procure um profissional.

Enfim, acredito que essas informações podem ser úteis, sempre lembrando que esse texto é informativo e deve-se procurar um advogado para auxiliar nas questões jurídicas, já para os efeitos emocionais, consulte um psicólogo de sua confiança.

“Bullying” uma preocupação mundial

O “Bullying” faz vitima um em cada dez estudantes brasileiros. Em relação à população mundial, uma pesquisa de 2016 da ONU com 100 mil jovens em 18 países, nos mostra que em média, a metade desta população já sofreu algum tipo de “bullying” sendo os motivos geradores para tais atos ligados à: aparência física,
gênero, orientação sexual, etnia ou país de origem.

O “bullying” é uma experiência terrível, com consequências muitas vezes danosa. A palavra “bullying” não possui tradução literal para o português. “Bully” é a expressão em inglês, para valentão, “bullying” pode ser traduzido como intimidação. Hoje esse fenômeno é considerado uma forma de violência. Em geral, não só crianças e adolescentes, mas principalmente esses, estão expostos sistematicamente a uma série de atos agressivos sendo motivo de grande preocupação, gerando estudos em várias áreas da sociedade para melhor entendimento deste fenômeno.

Este ato, praticado tanto de forma direta quanto indireta, é de incidência muito expressiva e alarmante no ambiente escolar, onde o número de ocorrências tem gerado perplexidade muito grande entre educadores, pais e pesquisadores por seu caráter nitidamente anti social e perverso. Em sua forma direta podem ser observados atos como: agressões físicas: chutar, empurrar, bater, destruir objetos pessoais; agressões verbais, como gozação, apelidos dados de forma pejorativa, discriminação e exclusão.

Na forma indireta a “vitimização” é muito difícil de ser percebida. Fazem parte deste ato: a indiferença, o isolamento, exclusão, difamação e provocações ligadas às deficiências. O que se tem observado em alguns estudos é que meninos são mais propensos para “bullying direto” e meninas para o” indireto”. Parece que este comportamento agressivo e antissocial, não tem uma motivação palpável, em uma relação dissemelhante. O que ocorre de fato é, quando um estudante ou um grupo, elege como alvo, uma mira – um outro ou outros contra o(os) qual(quais) escolhe uma série de maus-tratos repetitivos, dificultando sua(s) defesa(s), gerando assim o pavor, a humilhação o desequilíbrio mental e emocional destes alvos que se sentem oprimidos.

Sendo assim, é de suma importância que família e escola estejam atentos, de mãos dadas, a possíveis mudanças, ainda que mínimas, ao comportamento dos filhos e alunos, buscando estabelecer um canal de comunicação que permita construir vínculos de confiança com os mesmos para que eles sintam acolhimento e possibilidade de apoio para se abrirem. Sabe-se que é somente através do diálogo aberto, amoroso a melhor
forma de combater esse tipo de violência, que pode causar efeitos catastróficos para a construção da identidade principalmente de crianças e adolescentes.

A Lei no13.185, em vigor desde 2016, classifica o “bullying” como intimidação sistemática, quando há violência física ou psicológica em atos de humilhação ou discriminação. A classificação também inclui ataques físicos, insultos, ameaças, comentários e apelidos pejorativos, entre outros. Convencionou-se que a data de 07 de abril, é o Dia Nacional de Combate ao “Bullying” e à Violência nas Escolas instituído em 2016, por meio da Lei no13.277. A escolha desta data está relacionada à tragédia que ocorreu em 2011, quando um jovem de 24 anos invadiu a Escola Municipal Tasso de Oliveira, no bairro de Realengo, no Rio de Janeiro, e matou 11 crianças. Nas escolas, são muitos os exemplos de atitudes agressivas capazes de causar sofrimento e angústia.

É muito comum ver casos de inibidos, introvertidos, intimidados pelos mais fortes e desinibidos. É comum encontrarmos apelidos pejorativos como: A menina mais gordinha sendo chamada de abóbora ou baleia; menino com óculos de quatro olhos, o magrinho de palito e por aí afora. No Brasil, estudos sobre o “bullying” afirmam que este fenômeno cresce assustadoramente e pode ter inúmeras causas: os modelos educativos familiares, como o autoritarismo, a permissividade, a ausência de limites e afeto, o abandono, a força das mídias, por meio de programas e filmes violento; além desses a influência cultural também tem seu papel – o egoísmo, o individualismo, o descaso reinantes na sociedade atual são colaboradores para a falta de empatia, compaixão, tolerância e respeito implícitos no bullying.

Os problemas causados pelo “bullying” variam de acordo com o tempo de exposição em que se esteve sujeito aos maus-tratos. Muitas vezes há um comprometimento da aprendizagem, desmotivação em relação aos estudos, podendo surgir processos psicossomáticos relativos à saúde física, mental e emocional da pessoa alvo, com manifestações físicas. Casos de “bullying” são muito graves porque se iniciam de forma silenciosa. O aluno que sofre a agressão em vez de contar para seus pais, contar na escola em geral sofre calado e começa a mudar seu comportamento. Importante colocar, que é na família que a criança desenvolverá repertórios e habilidades que serão requeridos na interação em outros ambientes. Assim famílias que apresentam características como a discórdia conjugal, habilidades parentais educacionais deficitárias, falta de monitoramento e negligência aumentam o risco de desenvolvimento de problemas de comportamento nas crianças.

Uma questão importante a saber: O que leva o agressor a praticar tal ato? O agressor quer ser popular, sentir-se poderoso,” ficar bem na fita”, ter uma boa imagem e isso faz com que o agressor atinja o colega várias e repetidas vezes, com humilhações e depreciações. O agressor é uma pessoa que não aprendeu a transformar sua raiva em diálogo.

Como um fenômeno relacional sistêmico, o “bullying” necessitaria ser trabalhado de forma engajada , família, escola ,meios sociais, trabalho este baseado nas relações entre diferentes subsistemas da comunidade: alunos, funcionários, educadores, pais e demais pessoas comprometidas com o desenvolvimento da criança e adolescente, tendo como foco:

  • Encorajamento e amparo, por meio de conversas, atitudes compassivas visando desenvolver o respeito às diferenças;
  • Promoção de campanhas de incentivo à paz e à tolerância;
  • Desenvolvimento de trabalhos didáticos, como atividades de cooperação e interpretação de diferentes papéis em um conflito;
  • Desenvolvimento em sala de aula de um ambiente favorável à comunicação e diálogo entre alunos;
  • Encorajamento dos alunos para denunciar o bullying procurando imediatamente a direção da escola ou pessoalmente ou por meio de uma pessoa da família responsável desse aluno.

Finalmente, é preciso buscar ativamente enfrentar o fenômeno bullying, seus agentes, vítimas e o cenário que o enseja, com campanhas de educação popular em todos os âmbitos, principalmente o escolar, mais favorável a acontecer. É importante compreender e disseminar a ideia que há formas de conter essa violência e que todos somos responsáveis por isso. Manter um diálogo entre pais e filhos é de extrema importância. Como resultado deste diálogo, orientar os filhos dando algumas sugestões de proteção em relação a um possível agressor: Ignorar o bullie e virar as costas. /Não demonstrar sentimentos. / Não fazer bullying nem querer brigar. /Procurar outros colegas, procurar ficar seguro. /Praticar a confiança e a assertividade. / Andar sempre acompanhado: dois (ou mais) são sempre melhores do que um. / orientar seu filho/aluno para ser colaborador e empático apoiando, fazendo companhia para alguém que esteja sendo vítima de bullying.

Enfim é fundamental falar sobre o bullying. Na medida em que for visto como um sério problema social que atinge todos nós, sem exceção, com certeza mobilizará famílias, escola, as autoridades e o meio social para encarar o problema com seriedade e eficiência.Ter leis apenas não resolve a situação é preciso ter consciência do tamanho do prejuízo que causa para toda a sociedade.

Referências:
ANTUNES, D.; ZUIN, A. Do bullying ao preconceito: os desafios da barbárie à educação. Psicologia & Sociedade, 20 (1): 16-32, 2008.

ASSIS, S. G.; CONSTANTINO, P.; AVANCI, J. Q. (org.). Impactos da violência na escola –um diálogo com professores. Rio de Janeiro: Ministério da Educação/Editora FIOCRUZ, 2010.p. 235-259

CEATS/FIA. Bullying escolar no Brasil: relatório final. São Paulo, 2010.

COSTA, F.T., Teixeira,M.A.,&Gomes,W.B. (2000) Responsabilidade e exigência: duas escalas par avaliar estilos parentais.Psicologia:Reflexão e Crítica,13 (3),465 - 473

FANTE, C.O fenômeno bullying. 6a Ed. Campinas: Verus Ed.,2011

RISTUM, M. Bullying escolar. In ASSIS, S. G.; COSNATNTINO, P.; AVANCI, J. Q. (ORGS) Impactos da violência na escola –um diálogo com professores. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2010

RUOTTI, C. Violência na escola: um guia para pais e professores. São Paulo: ANDEHP: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2006.

SILVA, A. B. B.Bullying: mentes perigosas nas escolas. Editora Fontanar, 2010.

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 4a. Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000

ALVES, Rubem. Conversas sobre educação. Campinas, SP: Verus Editora, 2003.

O arco-íris um pouco menos colorido: suicídio entre jovens e adolescentes gays

No primeiro final de semana de junho, aconteceu em São Paulo a já tradicional Parada do Orgulho LGBTI+[2] em sua 22 edição. Segundo os organizadores, a Parada contou com a participação de mais ou menos 3 milhões de pessoas que celebraram a visibilidade das pessoas LGBTI+ na luta por direitos igualitários e na luta contra o preconceito e a discriminação social.

Marcada por um clima festivo a Parada enfatizou mais uma vez a importância em combater o preconceito que tanto afeta a vida de milhões de pessoas LGBT. Porém, para além deste clima amistoso, existe uma realidade muito preocupante e triste que é o alto índice de tentativas de suicídio e suicídio, principalmente entre jovens e adolescentes gays.

Vamos a duas situações que se tornaram muito conhecidas, pois seus personagens, jovens gays, fizeram circular pela internet o bullying homofóbico que sofriam e que levaram ambos a cometerem suicídio por não suportarem o sofrimento em relação a sua orientação sexual. É isso mesmo, o suicídio entre jovens gays tem rosto, história e uma teia de fatores que vão desde a falta de compreensão e rechaço da própria família a questões relacionados a homofobia institucionalizada e internalizada.

A primeira história é a do adolescente americano Jamey Rodemeyer, que se suicidou em setembro de 2011 com 14 anos de idade. Jamey postava vídeos na internet falando sobre o sofrimento em ser vítima constante de bulliyng e o quanto isso o fragilizava. Em seus depoimentos na internet Jamey deixou registrado “As pessoas me odeiam, me dizem que iria pro inferno por ser gay” ou ainda frequentemente ouvia de seus colegas de escola “Bicha… porque você não se mata”. A morte prematura de Jamey teve ampla repercussão, tornando-o uma espécie de símbolo na conscientização sobre a importância da prevenção do suicídio entre adolescentes e jovens gays. Para assistir um dos depoimentos de Jamey acesse o link https://www.youtube.com/watch?v=440bOCfBtu0.

Outra história sobre suicídio motivado pelo preconceito contra a orientação sexual é a do jovem brasileiro Yago Oliveira, acontecido na cidade de Sapé na Paraíba em 2017. Após postar na internet um grande desabafo sobre o preconceito e a perseguição que sofria por parte de sua família por não aceitarem ou respeitarem sua orientação sexual, o jovem cometeu suicídio, denunciando a hipocrisia das atitudes de seus familiares e o grande sofrimento que vivia. Seu depoimento pode ser acessado no link https://www.pragmatismopolitico.com.br/2018/03/suicidio-yago-oliveira-jovem-gay.html

Mediante tais situações, cabe-nos perguntar: Jovens e adolescentes LGBTI+ são mais propensos e mais vulneráveis a tirarem suas vidas por conta do sofrimento relacionado a homofobia? Temos evidências cientificas e pesquisas nesta temática?

A resposta para ambas as perguntas acima é SIM.

Segundo a APA – Associação Americana de Psicologia[3], jovens e adolescentes LGBTI+ sofrem altos índices de rejeição, discriminação e violência, sejam elas social, familiar ou escolar e esses fatores estão relacionados e elevam em 8,4 vezes a possibilidade de tentativas de suicídio, e em 5 vezes o risco de cometer o suicídio se comparados aos seus pares heterossexuais. Estas evidências também aparecem nos estudos do pesquisador Mark Hatzenbuehler da Universidade de Columbia e publicada na revista científica Pediatrics em 2011, que mostra a relação entre o estigma sofrido por esses jovens e adolescentes e o risco de tentativa e suicídio, postulando que 40% deste público já apresentou “ideação suicida”, ou seja, já pensaram uma ou mais vezes em se matar.

No Brasil a vulnerabilidade de jovens e adolescentes LGBTI+ também é demonstrada pela recente Pesquisa Nacional sobre o Ambiente Educacional no Brasil (ABLGT, 2016). A pesquisa foi realizada por intermédio de um questionário online e respondida por 1.016 jovens e adolescentes LGBTI+ entre 13 e 21 anos de idade em todo o território nacional. Os resultados da pesquisa apontaram que 60% dos jovens e adolescentes sentiam inseguros/as na escola por causa de sua orientação sexual, 48% ouviram com muita frequência comentários homofóbicos feitos por seus pares, 73% foram agredidos/as verbalmente por causa de sua orientação sexual, evidenciando o quanto o ambiente escolar brasileiro é um espaço extremamente ameaçador para esse grupo, aumentando a vulnerabilidade e o risco para o isolamento social e transtornos psicológicos – como quadros depressivos, por exemplo, que podem ocasionar ideias e práticas suicidas.

As pesquisas no Brasil sobre essa temática ainda são incipientes. Devemos conhecer mais essa realidade para que possamos construir estratégias de promoção de saúde e prevenção olhando para a realidade e para as especificidades de jovens e adolescentes LGBTI+.

Nós, terapeutas de família, temos uma grande responsabilidade no que tange ao manejo psicológico nessas situações. Mesmo com maior tolerância e mudanças de crenças sobre a homossexualidade, a mesma continua sendo um tabu no seio familiar. Ainda é bastante comum familiares acessarem profissionais da psicologia, ou procurarem apoio terapêutico para compreenderem ou darem conta da homossexualidade de seus filhos.

A demanda em um trabalho com a família é desconstruir mitos relacionados a homossexualidade, “normatizar” a orientação sexual e também apoiar o processo de revelação social que implica a lógica do segredo, afetando o relacionamento com redes pessoais e sociais.

Ao atender o indivíduo homossexual e sua família o terapeuta precisa reconhecer suas ressonâncias sobre temas como orientação sexual, identidade de gênero, relacionamentos amorosos homoafetivos, desconstruindo as perspectivas heteronormativas que condicionam e produzem muito vieses.

Queremos e podemos acreditar que informações e intervenções que promovam bem estar e maior qualidade de vida a adolescentes e jovens gays e suas famílias podem contribuir para que outros Jameys e Yagos não saiam deste mundo de forma tão precoce e de maneira tão triste e violenta, deixando o arco-íris da diversidade menos colorido.

Seguem as referências citadas no texto para aprofundamento sobre o tema.

SINGH, A.A.; MOSS, L.; MINGO, T. EAKER, R. LGBTQQ Students and Safe Schools: A Call for Innovation and Progress, APA, 2015.

PESQUISA NACIONAL SOBRE O AMBIENTE EDUCACIONAL NO BRASIL AS EXPERIÊNCIAS DE ADOLESCENTES E JOVENS LÉSBICAS, GAYS, BISSEXUAIS, TRAVESTIS E TRANSEXUAIS EM NOSSOS AMBIENTES EDUCACIONAIS, disponível em http://www.abglt.org.br/docs/IAE-Brasil.pdf,

HATZENBUEHLER, M.K. The Social Environment and Suicide Attempts in Lesbian, Gay and Bisexual Youth.. Pediatrics,May 2011, Volume 127/ ISSUE 5 . Disponível em http://pediatrics.aappublications.org/content/127/5/896

Na internet vale a pena conhecer:

https://www.facebook.com/itgetsbetterbrasil/

https://www.facebook.com/search/top/?q=rede%20nacional%20de%20adolescentes%20lgbt

São páginas no Facebook que buscam por intermédio da rede social promover apoio, suporte, disseminação de informação e mensagens de superação e esperança a jovens e adolescentes LGBTI+ em situações de vulnerabilidade e risco.

[1] Doutorando e Mestre em Psicologia Clínica e Especialista em Terapia Familiar e de casal – PUC SP. Especialista em Psicologia Hospitalar e Reabilitação pelo HC FMUSP. Membro da ANEXA – NUFAC – PUC SP. Coordenador e responsável pela área de empregabilidade da Fundação Dorina Nowill para Cegos e corresponsável pelo GPAIH – Grupo de Pais Homossexuais.

[2] A sigla LGBTI + significa Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgênicos, Intersexo e o símbolo + para todos outras orientações sexuais e identidades de gêneros não normativas. Nosso olhar neste texto foi direcionado a jovens e adolescentes gays cisgêneros, por compreendermos que cada identidade no universo LGBTI+ tem suas especificidades e desafios e pelas pesquisas demonstrarem que que são os homens gays jovens e adolescentes que mais cometem suicídio.

[3] A APA já mantém desde da década de 1970 uma seção específica com diretrizes e orientações específicas para o trabalho, pesquisa e prática do Psicólogo Clínico junto a população LGBTI+ que pode ser acessado pelo site www.apadivision44.org.br

Adolescência, drogas e sua relação com o suicídio

A fim de dar continuidade as reflexões sobre o Suicídio, pretendo trazer algumas considerações a partir da minha experiência como psicóloga familiar em um CAPS Infanto Juvenil Álcool e Outras Drogas, na cidade de São Paulo.

Muitos dos adolescentes que vi buscar ajuda por conta das drogas, traziam consigo ideias suicidas e algumas tentativas frustradas de tirar a própria vida, merecendo cuidado intensivo, planejado diariamente e de maneira individual – processo que chamamos de PTS – Projeto Terapêutico Singular.

Antes de entrarmos na questão da droga propriamente dita, é preciso lembrar que, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio (AIPS), cerca de três mil pessoas cometem suicídio no mundo diariamente, o que significa que a cada três segundos uma pessoa se mata. As duas entidades divulgaram pesquisas apontando que o fator que mais predispõe ao suicídio é a depressão. Mas que muitos outros aumentam a propensão, como transtornos bipolares, abuso de drogas e álcool, esquizofrenia, antecedentes familiares, contextos socioeconômicos e educacionais pobres ou uma saúde física frágil.

Lamentavelmente, o suicídio é a segunda causa de morte de indivíduos entre 15 a 29 anos no mundo. Quarta causa de morte no Brasil – ao total, 11 mil é a média em nosso país que tiram a própria vida. E para cada caso fatal há pelo menos outras 20 tentativas fracassadas.

No Brasil, de acordo com o Mapa da Violência 2017, estudo publicado anualmente a partir de dados oficiais do Sistema de Informações de Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde, a taxa de suicídios na população de 15 a 29 anos subiu de 5,1 por 100 mil habitantes em 2002 para 5,6 em 2014 – um aumento de quase 10%. Em 1980, a taxa de suicídios na faixa etária de 15 a 29 anos era de 4,4 por 100 mil habitantes; chegou a 4,1 em 1990 e a 4,5 em 2000. Assim, entre 1980 a 2014, houve um alarmante crescimento de 27,2%.

Pesquisadores da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (Uniad) da Unifesp, analisaram tentativas de suicídio atendidas em um pronto-socorro de Embu das Artes, interior de São Paulo, e sua relação com o consumo agudo, abuso ou dependência de substâncias psicoativas. Os resultados mostraram que além do consumo de álcool antes da tentativa, maconha e cocaína também estiveram presentes em 7,5% dos casos analisados.

Como colocado acima, as estatísticas confirmam e podemos observar a partir dos últimos acontecimentos em escolas particulares de SP, a necessidade de conversar sobre o assunto, principalmente quando falamos de nossos jovens. Os números apontam e deixam claro que esse tipo de situação não são representadas por casos isolados e não escolhem classe social para acontecer. Por isso é necessário, cada vez mais, combater o estigma e saber identificar os sinais de alerta precocemente, para evitar que o limite se imponha com o trágico desfecho do suicídio.

Para contextualizar essa questão, é importante lembrar que vivemos numa sociedade em que toda forma de consumo é incentivada. Considera-se o valor de uma pessoa por aquilo que ela usa, e não por aquilo que ela é, e as qualidades não encontram espaço para serem valorizadas. Há o incentivo constante por um corpo magro, pela valorização da imagem e os meios de comunicação ditam as regras de como devemos nos vestir, sentir, viver e amar. Isso tudo acaba por estimular, de maneira indireta, o uso indiscriminado de drogas medicamentosas para o alcance do corpo “perfeito” e o estado de “felicidade” ideal – os adultos fazem isso. Outro exemplo é a cocaína, droga que proporciona, inicialmente, o constante estado de felicidade, o êxtase, o bem estar e, consequentemente, também o corpo magro.

Tudo isso, é claro, traz a falsa sensação de solução “mágica” para os problemas, sejam eles físicos ou psíquicos, aumentando assim o uso indiscriminado dessas drogas. Nesse sentido, não é raro passarmos, sem perceber, a ideia as nossas crianças de que elas precisam, a todo o custo, serem felizes, bem sucedidas e realizadas! Infelizmente, esse pacote não traz em seu rótulo a informação de que, inevitavelmente, não vamos conquistar o estado pleno de felicidade o tempo todo!

Quando falamos da droga na adolescência, é importante lembrar que seu uso está, na maioria das vezes, intimamente relacionado à falta – falta de sonhos e de um lugar de pertencimento. Observamos, ao conversar com adolescentes usuários de drogas, que o sentimento de vazio é constante e intenso – uma vida que precisa de anestésico para ser suportada – e esse é o maior desafio – identificar essa parcela de jovens que fazem uso de droga para se alimentar e preencher as faltas da alma! Contra isso, não ha sentido que possa, pelo menos no início, dar conta de tanto vazio!

Por tudo isso, necessitamos dar um passo a trás e buscar compreender o que oferecemos ou deixamos de oferecer aos nossos jovens. A falta de diálogo, segurança e presença parecem corroborar para esse cenário. É preciso considerar que a droga não é a protagonista desta história e compete com o abandono, a violência física e sexual, as dificuldades em estabelecer limites e expressar afeto e problemas de saúde mental. Não se trata de minimizar os efeitos nocivos da droga, mas considerar que podemos estar diante de questões muito mais complexas – neste caso a droga pode ser utilizada como forma de apaziguar o sofrimento ocasionado por todas essas questões.

O cuidado com a família

Na prática, quando lidamos com famílias cujos filhos fazem uso de droga, é possível observar que a preocupação principal trazida é o uso da substância, em especial as ilícitas. Devemos, no decorrer do processo de cada adolescente, fazer compreender os motivos que o levam ao uso da droga. É ajudar a família a compreender o que há por traz dos olhos vermelhos quando, por exemplo, o uso da maconha se faz presente.

Assim, em relação ao papel da família quando falamos de drogas na adolescência, é fundamental dispor de informações sobre as causas do inicio do consumo e dos efeitos das diferentes drogas. Nesse caso, a importância de compreender o que impulsiona a busca pelo uso e se esse uso corrobora em alívio para questões relacionadas à saúde mental ou outro tipo de sofrimento psíquico e físico. Dependendo do caso, o risco para o suicido pode estar presente.

Sobre as drogas, é preciso que os pais passem as informações aos filhos dentro de um clima familiar adequado sem recorrer desnecessariamente ao argumento catastrófico das conseqüências do consumo de drogas – aliás, a droga é prazerosa sim! É importante que eles saibam disso!

É importante ainda que a conversa sobre uso de drogas ocorra de forma clara, sempre adaptada à idade dos filhos. A falta de informação sobre o efeito das diferentes drogas pode ser um dos aspectos que podem impedir a percepção de se o filho está começando a consumir substâncias psicoativas. Se um dia ele escolher usar droga, que seja de maneira consciente e da forma menos prejudicial possível.

Dessa forma, ao acolher a família, é preciso reconhecer que, no contexto solitário do adolescente usuário de drogas, encontra-se também uma família solitária em sua capacidade de ajudar e compreender a dinâmica dos filhos que escolhem fazer uso da droga para lidar com a realidade insuportável do viver. É preciso ajudar a família a rever, transformar e muitas vezes conhecer pela primeira vez a necessidade que seus membros apresentam, de forma a conseguir retomar o seu crescimento enquanto família

Instaura-se, nesse sentido, um grande desafio para nós, educadores, pais e profissionais de saúde. Levando-se em consideração a intersecção entre a droga, questões de saúde mental e o risco para o suicídio, é preciso considerar a importância de programas de intervenção como forma de garantir melhores condições para o adolescente em desenvolvimento, lembrando que o suicídio é uma das causas de morte evitável – precisamos estar atentos aos seus sinais!

Considerando a conexão do uso de drogas, o significado para cada indivíduo e o padrão relacional da família com o usuário, cabe lembrar o quão importante é incluir não só a família no tratamento, mas construir com ela estratégias para que possa se sentir mais competente no cuidado de si mesma. O remédio mais eficaz continua sendo a intervenção precoce. Quanto antes o problema for detectado, maiores as chances de evitar um trágico final. E a identificação é sempre feita pela família. Portanto, adolescentes precisam de pais atentos, inteirados do que estão fazendo, de como estão se sentindo, mesmo com a resistência dos filhos.

Por fim, a atitude da família em buscar ajuda e acompanhar o adolescente no tratamento passa a ser um fator de proteção, uma oportunidade de crescimento e retomada da responsabilidade no cuidado de seus filhos, incluindo aqueles que não fazem uso da droga.

Luciana Cristina Escudero
Psicóloga, Especialista em Terapia Familiar e Casal pela PUC-SP. Especialista em Psicopatologia e Saúde Pública pela FMSP-USP. Experiência de 15 anos no atendimento a crianças, adolescentes e famílias em situação de vulnerabilidade social, em especial uso de drogas. Em consultório particular atendimento a família, casal e indivíduo.