Violência contra a mulher: no silêncio doméstico

Muitas vezes o gênero é o disparador para tal violência!

Violência contra mulher se caracteriza por todo ato de agressão física, sexual ou psicológica que resulte em traumas e/ou morte.

Segundo a ONU, “não há um região do mundo, nenhum pais e nenhuma cultura em que a segurança das mulheres diante da violência esteja assegurada”. Essa prática de violência continua sendo uma das fontes mais difundida de violação dos direitos humanos em todo o mundo.

Em suas diversas características de violência contra a mulher, falaremos mais aprofundado da violência doméstica, onde se denomina por todo tipo de violência praticada entre os membros que habitam um ambiente familiar em comum. Ela é subdividida em violência física, sexual, patrimonial, moral e psicológica.

De acordo com a OMS, em todo o mundo, cerca de 38% dos assassinatos de mulheres são cometido por um parceiro intimo.

– Violência física: Engloba todo ato de querer ferir e causar danos ao corpo da mulher, por tanto, todo tipo de tapas, empurrões, chutes, murros, perfurações, queimaduras, tiros e entre outros, é um dano físico a vitima.

– Violência sexual: O estupro conjugal, violação conjugal ou estupro marital é um sexo não consensual, perpetuado pelo cônjuge da vítima. Obrigar a companheira por meio de constrangimento, a presenciar, manter ou participar de relação sexual não desejada.

– Violência patrimonial: Destruição de bens materiais, objetos ou documentos.

– Violência moral: Toda conduta que exista calúnia, difamação ou injúria.

– Violência psicológica ou emocional: A mais silenciosa, que deixa raízes profundas na vítima, geralmente de efeito cumulativo, no qual, é realizado um dano emocional a mulher com a diminuição da autoestima, humilhação, jogos de poder, xingamentos, gritos, manipulação, desprezo e desrespeito.

Segundo estudos, a violência psicológica é a mais frequente, seguido da violência física. Temos como um disparador para a violência doméstica o uso e abuso de álcool e outras drogas, sendo um facilitador para a justificativa. Outro fator que é predominante nas justificativas do agressor é o fator de ciúmes.

Existe uma dificuldade de identificação dos atos violentos, pois muito não são denunciados, sendo difícil de estimar a real magnitude desses atos de violência.

Lei Maria da Penha – Lei 11340/06

Uma pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), publicada em março de 2015, demonstrou que a Lei Maria da Penha reduziu em 10% a projeção de aumento da taxa de homicídios domésticos contra as mulheres.

A criação da Lei é de extrema importância na luta contra a realidade assustadora de violência doméstica e contra a desigualdade de gêneros. Com a promulgação da Lei Maria da Penha, o número de denúncias de violência doméstica aumentou, portanto, infere-se que as mulheres passaram a ter maior conhecimento sobre seus direitos. A Lei é responsável ainda pela criação de locais e serviços que eram antes inexistentes: delegacias com atendimento especializado, por exemplo.

No Brasil existem hoje mais de 300 delegacias especializadas com algumas denominações diferentes: DDM (Delegacia de Defesa da Mulher), DM (Delegacia para a Mulher), DEAM (Delegacia Especializada no Atendimento a Mulher).

Dentro das delegacias, existe um trabalho multiprofissional, aliado as Politicas Públicas, com o interesse em prevenir e erradicar todo tipo de violência contra a mulher.

Como podemos ajudar

– Chame a policia. Hoje caiu o ditado que “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”. Temos por respeito a vida que está sendo violentada, chamar autoridade que possa ajuda-los.

– Não julgue. Julgar uma mulher que está numa situação não só repele os pedidos de ajuda, como também reproduz o mesmo padrão de violência que ela sofre do companheiro.

– Lembre quem ela é. Ajude essa mulher a lembrar de quem ela é, pois nessa situação de violência, o que é bom sobre ela, acaba sendo esquecido. Converse, ofereça ajuda, fale das características positivas que você enxerga nela.

– Escute. Esteja disponível para escutá-la, nesse momento para ela falar o que está acontecendo já pode abrir alternativas para essa mulher sair dessa situação.

– Ajude-a pedir ajuda. Você pode mostrar algumas alternativas de ajuda para ela, procure orientação para poder ajuda-la. Mostre opções profissionais, como as delegacias, orientação de um advogado, acompanhamento psicológico e psiquiátrico em alguns casos.

Em São Paulo, temos Centros de Atendimento para Mulheres Vítimas de Violência, acesso o site
https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/direitos_humanos/mulheres/centros_de_atendimento/index.php?p=144279

Precisamos dar voz para as mulheres que estão em sofrimento!

Cadê o bebê?

É dessa ‘falinha’ da brincadeira do “cadê, achou” que iniciamos esse texto sobre infertilidade. Essa realidade dura que milhares de pessoas passam, mas que não se fala muito sobre.

Diferente de temas como lado B da maternidade, tipos de parto, criação com apego etc, a infertilidade ainda se mantém um tema incômodo e por isso invisível, o que contribui para que quem passa por isso se sinta um tanto sozinho…

“Se eu soubesse que ia demorar tanto, tinha começado a tentar antes”

E quem é que sabe!? Antes de tudo, é fundamental saber que o casal é considerado infértil após não conceber, dentro de um período de um ano de relações sexuais regulares sem contracepção. Depois disso pode ser considerado procurar ajuda médica especializada.

Ainda é muito comum que a mulher carregue consigo a culpa pela infertilidade, que muitas vezes tem sua origem no casal, ou mesmo, “Sem razão aparente” (esse último costuma ser o mais desorganizador da convivência do casal). Com essa informação, o que queremos dizer é que é muito importante que o casal converse, e quem ambos se submetam aos exames disponíveis para tratar do assunto de forma mais colaborativa e real possível. Além disso, é importante saber também que já ter tido filhos não impede o aparecimento da infertilidade.

Infertilidade (assim como outras questões de impacto) não acontecem por “merecimento”, a gente também escuta muito as pessoas se perguntarem “o que eu fiz pra merecer?” e procurarem mil justificativas, como algum aborto provocado no passado, ou terem sido maus filhos para os próprios pais. É preciso que sejamos mais amorosos conosco e com as perguntas que seguem sem resposta.

… Enquanto o futuro não vem, seja em que fase de busca do bebê estiverem, seja no impacto da notícia da infertilidade, da peregrinação rumo à concepção (que traz tanta esperança e decepção), quanto à decisões de quando parar ou seguir em frente na busca ou pensar em outras formas de acesso à parentalidade (como a adoção), é importante se acompanhar de pessoas que consigam acolher sem pressionar e sem julgar nossos processos. Se considerarem o assunto muito privado, podem sempre procurar um terapeuta. Muitas vezes, as próprias clínicas de fertilização podem indicar profissionais bacanas. Mas não fiquemos sozinhos, vamos juntos. Vamos de amor, de Guimarães Rosa que diz: “Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.”

Baby Blues x Depressão Pós-Parto

Uma depressão pós-parto não tratada pode durar meses e pode se tornar um distúrbio depressivo crônico. Em alguns casos é necessária medicação, além de psicoterapia. Você conhece os sintomas? Sabe diferenciar Baby Blues da Depressão pós-parto? Sabe como lidar com ela? Esse é o tema do texto de hoje, vamos lá?

Você sabia que, de acordo com Ruchii et al (2007), 50 a 80% das novas mães (geralmente nas duas primeiras semanas após o parto), são afetadas pela Baby Blues ou tristeza materna, que também pode colaborar e evoluir
para uma depressão pós – parto? O baby blues ou melancolia do pós-parto é definido por um tipo de depressão
leve, transitória, que ocorre após o nascimento do bebê.(SILVA E PICCININI, 2009).

Diferença entre o Baby Blues e a depressão pós-parto:

A diferença ocorre mais pela intensidade dos sintomas, do que pelo tempo ou duração deles. O Baby Blues não atrapalha o funcionamento da vida da mulher e apesar de estar mais melancólica, ela consegue fazer suas atividades rotineiras, porém apresentando uma confusão de sentimentos decorrentes da maternidade e de suas responsabilidades com o recém-nascido, causando um menor impacto na vida da mãe e na relação dela com o bebê e esse, por ser passageiro e não ter agravante nos sintomas, não precisa de tratamento.
Já na depressão pós-parto, os sintomas costumam causar grande impacto em diversas áreas e precisa de tratamento, com acompanhamento médico e psicológico.
Procure ajuda logo no início, caso apresente com frequência ou maior intensidade 3 ou mais dos seguintes sintomas:

• Humor deprimido na maior parte do dia em quase todos os dias
• Choro fácil e constante
• Redução de interesse e prazer nas atividades
• Mudança significativa no apetite ou mudança inesperada no peso
• Incapacidade de dormir (insônia) ou sonolência excessiva (hipersonia)
• Agitação ou movimentos mais lentos
• Fadiga ou falta de energia
• Sentimentos de inutilidade
• Mudança de humor repentino
• Capacidade reduzida de pensar, concentrar-se ou tomar decisões
• Pensamentos recorrentes de morte ou suicídio.
• Afastamento da família e dos amigos
• Ansiedade grave
• Ataques de pânico
• Sentimento de tristeza ou desespero constante
• Perder o interesse ou não sentir prazer na maioria das atividades cotidianas.
• Vontade súbita e assustadora de prejudicar seus bebês, ou ignorá-los
• Medo súbito de não ter ‘capacidade’ de cuidar do seu bebê.

Diante desses sintomas é imprescindível ter o acompanhamento adequado de um profissional…
De acordo com estudos as causas podem estar associadas a alguns fatores físicos, emocionais ou de estilo de vida.

De acordo com a medicina, após o parto, a mulher sofre várias mudanças físicas, seja no volume de sangue, na pressão arterial, no sistema imunológico e no metabolismo que podem contribuir para o cansaço e para as alterações de humor. Nesse período, a produção de estrogênio e progesterona caem drasticamente e essas mudanças por si só podem contribuir para um quadro de depressão pós-parto. Além disso, os hormônios produzidos pela glândula tireóide, também podem cair bruscamente, potencializando a sensação de tristeza e de cansaço.
O stress, a pressão, a privação do sono, contribuem para que a pessoa tenha dificuldade em lidar com as situações do dia-a-dia, trazendo alterações psicológicas. Geralmente nesse período as mães podem se sentir menos atraentes, sentem que perderam a sua autonomia, enfim, vários fatores
contribuem ativamente para a depressão pós-parto.

Nos homens, a depressão pós-parto pode surgir devido à ansiedade de poder oferecer o melhor para o seu filho (educação, cuidados, saúde) , aumentando a pressão sobre as suas responsabilidades de prover a casa, e a família que está crescendo.(essas causas são mais comuns nos pais, mas também podem ocorrer com as mães).
Muitos fatores podem levar à depressão pós-parto, desde dificuldades de amamentação, ciúmes dos irmãos mais velhos em relação ao bebê, dificuldades financeiras, falta de apoio do parceiro, dificuldades de adaptação do casal à nova fase, enfim, fatores que possam desestabilizar a família, pois a maternidade e a paternidade é rodeada de incertezas, inseguranças e responsabilidades.

TRATAMENTO: Geralmente a Psicoterapia e a orientação de um profissional qualificado ajudam a prevenir e tratar a depressão pós parto e a depressão durante a gravidez. Para melhorar o sucesso do tratamento, é importante que pai e mãe possam fazer parte juntos desse processo, pois o marido não consegue compreender e lidar com os sintomas, além da psicoterapia com o psicólogo, outros especialistas podem auxiliar no diagnóstico e tratamento: Psiquiatra, Obstetra, Ginecologista e o Endocrinologista. Nessa fase o apoio é essencial!!!

Tanto no baby blues quando na depressão pós-parto é muito importante que a mãe tenha uma rede de pessoas próximas que compreendam o momento difícil que ela está passando. A Depressão pós-parto (DPP) pode iniciar até 12 meses após o parto e atinge cerca de 15% das mulheres e é importante saber que ela não atinge apenas a mãe, mas todos os à sua volta, já que afeta a parte física, cognitiva, emocional e comportamental. (ARRAIS; FRAGALLE; MOURÃO, 2014).

Julgar, dizer que é frescura, cobrar ou comparar com outras pessoas não ajuda em nada… A família e o marido devem apenas apoiar e compreender que é uma fase. Devem oferecer ajuda nos cuidados com o bebê, mas sem gerar culpa na mãe, pois ela já tende a se culpar por não conseguir cuidar, amamentar, dar banho, colocar para dormir, e, mesmo que ela consiga fazer, ainda assim percebe-se fazendo tudo errado. Elas precisam de um tempo para se reorganizar e se readaptar à essa nova fase, para ajustar a nova rotina da casa e se estabilizarem física e emocionalmente. Dê o seu apoio!!!

É muito importante a mãe e a família saberem que o bebê nos primeiros 100 dias precisa receber afeto, contato físico, calor humano, carinho, através do toque e do olhar. De acordo com os especialistas, mães muito deprimidas não conseguem ter esse contato com seu bebê e a falta dele pode interferir no sistema emocional do cérebro da criança, e pode trazer consequências quando ela for adulta, seja por apresentar depressão ou problemas psicológicos.

Como vimos, o Baby Blues e a depressão pós- parto possuem diversas causas que podem contribuir para que a doença se agrave…fiquem atentos!!!
Na dúvida procure um profissional qualificado:

*** Esse conteúdo é meramente informativo e não tem a pretensão de servir como um diagnóstico, procure seu médico se identificar esses sintomas de forma insistente e recorrente.

Principais referências:

ARRAIS, A.R., MOURÃO, M.A., FRAGALLE, B. O pré-natal psicológico como programa de prevenção à depressão pós-parto. Saúde Soc.: vol. 23, n. 1, p. 251- 264, 2014. Disponível em < http://www.scielo.br/pdf/sausoc/v23n1/0104-1290-sausoc-23-01-00251.pdf

RUSCHII, G. E. C.; SUN, S. Y.; MATTAR, R.;FILHO, A. C.; ZANDONADE, E.; LIMA, V. J. Aspectos epidemiológicos da depressão pós-parto em amostra brasileira. Rev. psiquiatr., Rio Grande do Sul, v. 29, n. 3, p. 274-280, dez. 2007.

SILVA, M. R.; PICCININI, C. A. Paternidade no contexto da depressão pósparto materna: revisando a literatura. Estud. psicol., v. 14, n. 1, p.5-12, Natal, abr. 2009

A difícil tarefa de se tornar mãe

Não é de hoje que vemos circular pelas páginas da internet postagens e comentários sobre as dificuldades enfrentadas pelas mães após o nascimento do bebê.

Dessa maneira, é importante destacarmos os aspectos complexos e omitidos do processo de se tornar mãe e que na maioria das vezes só são descobertos na prática.

Logo antes de o bebê nascer as mães começam a ser criticadas por suas escolhas em relação ao parto, se cesárea, se normal, se natural ou se humanizado. Sempre vai haver alguém com uma opinião ácida e pouco receptiva diante dessa escolha, no entanto o que se deve ter em mente é que este momento é muito particular, deve ser preservado e independente do que dizem os outros representa uma escolha alicerçada em valores, crenças, preocupações e estilos de vida.

São julgamentos pesados, ásperos e muitas vezes cruéis em um período de intensa ansiedade, não contribuindo em absolutamente nada com o bem-estar materno fetal, portanto, vamos deixar que cada mulher se encarregue de fazer sua escolha e guardemos nossos comentários, expressando apenas sentimentos de incentivo e acolhimento para esta mulher que está vivendo uma montanha russa de emoções.

Após o nascimento novas opiniões, sugestões e críticas surgem em todas as esferas da vida dessas mães e novamente elas se veem pouco acolhidas, o que reforça seus sentimentos de solidão e desespero. Imersas em um contexto de estresse, medo, preocupação, adaptação e muitas dúvidas essas mães passam a se sentir piores por não conseguirem estabelecer limites e fronteiras às intromissões e palpites.

Somando-se a isso descobrem que o amor do bebê e pelo bebê não é algo espontâneo, precisa ser construído, fortalecido e cuidado, exigindo muitas vezes um esforço descomunal por parte da mãe, pois os pequeninos as levam a conhecer novos limites de privação de sono, alimento e, inclusive, auto-cuidado.

Nesse turbilhão de emoções e sentimentos ainda temos o processo de amamentação, que para muitas é sofrido, dolorido e a pega não é tão rápida, o que gera sentimentos ambivalentes diante da capacidade de ser mãe e nutrir seu próprio filho.

Diante desse panorama o que essa mãe mais precisa é de apoio, ajuda e acolhimento. Ela precisa que alguém cuide do bebê para que ela possa descansar, tomar banho, se alimentar e cuidar de si mesma. Ela também precisa de alguém que a ajude com as coisas de casa. Toda ajuda é muito bem-vinda e necessária.

É importante “desromantizar” a maternidade para que cada vez mais as novas mães se sintam mais empoderadas diante de suas escolhas, respeitadas em seu espaço e livres para se sentirem como quiserem diante desse momento tão difícil de se reinventar!

A voz por trás da dor… como ouvi-la antes que se cale?

O relato da experiência interventiva com alunos de ETECS

MEDOS E ANGÚSTIAS QUE RONDAM A JUVENTUDE…

Há três anos fui procurada pelo coordenador pedagógico de uma ETEC de São Paulo para conversar a respeito dos medos e angústias que rondam a juventude atual, pois estava muito preocupado com seus alunos, uma vez que muitos lhe procuravam com comportamentos depressivos e idéias suicidas.

Percebera que, ao fazer rodas de conversas com os alunos muitos se sentiam angustiados e já tinham apresentado idéias suicidas em algum momento de suas vidas, o que o deixou alarmado, pois poderia haver casos de suicídio, se não tivesse alguma intervenção.

A partir de nossa conversa, surgiu a proposta de um ciclo de workshops com as temáticas mais relatadas pelos alunos como causadoras de angústia: depressão na adolescência e suas causas e violência doméstica.

Buscarei relatar essas experiências enriquecedoras nesse artigo, porém quero tristemente afirmar que ainda há muito que fazer nesta área, uma vez que os índices de depressão na adolescência e suicídio alarmam nos chamando a atenção pelo fato de que precisamos ouvir a dor de nossos jovens antes que suas vozes se calem.

DEPRESSÃO NA ADOLESCÊNCIA

A depressão é a principal doença e motivo de inaptidão entre os adolescentes, segundo relatório divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que cita acidentes de trânsito, Aids e suicídio como as principais causas de morte entre 10 e 19 anos. “A depressão é a causa predominante de doença entre os adolescentes”, afirma a OMS no primeiro relatório completo sobre os problemas de saúde dos adolescentes, elaborado com os dados fornecidos por 109 países.

Muitas vezes, os adolescentes ao serem questionados sobre os motivos, nem sempre conseguem chegar a uma causa específica, mas trazem uma somatória de vivências que os angustiam a ponto de pensar na morte como sua única saída. Relatam uma dor extrema, a ponto de preferir a dor física, provocando-a.

Mesmo, com um grande número de pesquisas acerca da temática, ainda não foi possível “desvendar” totalmente quais são os fatores capazes de desencadear as alterações de humor. Sabe-se que a hereditariedade é um fator importante, mas hoje também já se sabe que fatores ambientais, como violência, bullying, perda de entes queridos, conflitos a cerca da sexualidade, entre outros, são capazes de afetar a vulnerabilidade de uma pessoa a problemas mentais.

Conversando com os jovens nas ETECs, esses fatores ambientais ficaram muito evidentes como estressores, a seguir destrincho os principais citados por eles:

  • Conflitos familiares – independente do nível sócio-ecômico, há um relato de distanciamento entre os membros da família, no qual o diálogo vem perdendo espaço como facilitador de entendimento;
  • Violência doméstica – Abuso sexual e físico por parte daqueles que deveriam cuidar e proteger da criança e do jovem;
  • Dificuldade de socialização – o jovem acreditando não ser bom ou interessante a ponto de se relacionar com o próximo;
  • Bullying;
  • Sexualidade – conflitos a cerca da definição do objeto de desejo; iniciação sexual e exposição da vida sexual pelas redes sociais;
  • Desilusão amorosa;
  • Dificuldades financeiras – a valorização do ter no lugar do ser;
  • Doenças Crônicas – tanto vividas pelo jovem quanto por entes queridos;
  • Perda de entes queridos

Interessante mencionar que ao falar sobre cada fator de risco acima citado com os jovens, várias manifestações aconteceram, com relatos de identificações próprias, ou seja, jovens presentes se sentindo acolhidos para dar seus depoimentos e pedir orientação, pois não sabiam como lidar com esses sentimentos que os abatiam ou de jovens pedindo ajuda para amigos da mesma faixa etária que estavam passando por essas dificuldades e que eles se sentiam no papel de telespectadores por assistir seus amigos em sofrimento sem ter poder de ação para socorrê-los.

Ficou evidente como é um assunto real e fervilha nessa fase do ciclo vital – a adolescência, bem como a importância de falarmos a respeito, ou seja, a importância da família em se aplicar no ouvir ao seus jovens, da escola propiciar ambientes facilitadores de diálogos onde eles possam se orientar e da sociedade no geral estar atenta ao que a juventude apresenta.

Em nossas conversas, muitos sintomas que são mencionados na literatura ficaram evidentes, dos quais cito alguns para nos manter em alerta:

  • Retardo psicomotor (dificuldade de realizar atividades rotineiras, como estudar, atividades físicas individuais ou coletivas)
  • Sentimentos de desesperança e culpa (tudo gira em torno de si, tendo a sensação que sua presença afeta o todo negativamente e que nada do que faz é bom o suficiente, reforçando o pensamento de que não vale a pena viver)
  • Perturbações do sono, principalmente hipersônia (distúrbio do sono que ocorre quando a pessoa dorme muito durante a noite e durante o dia, mas está sempre cansada). Dormir para não sentir…
  • Alterações de apetite e peso.
  • Isolamento e dificuldade de concentração (relatam que seus pensamentos funcionam como turbilhão, sem conseguir se desligar das vivências e emoções geradoras de angústia).
  • Prejuízo no desempenho escolar.
  • Baixa auto-estima.
  • Queixas físicas (dor abdominal, fadiga e cefaléias).
  • Graves problemas de comportamento, especialmente o uso abusivo de álcool e drogas como uma tentativa de entorpecer-se e deixar de sentir suas angústias.
  • Ideias e tentativas de suicídio.

COMPORTAMENTO SUICIDA

O suicídio no adolescente é o fato mais relevante do quadro clínico da depressão. Dentro do espectro do comportamento suicida situam-se as ideias suicidas, as tentativas de suicídio e o suicídio consumado.

Segundo a OMS mais de 800 mil pessoas morrem por suicídio a cada ano. Isso significa uma morte a cada 40 segundos. Muitos outros tentaram suicídio, e o suicídio é a segunda principal causa de morte entre as pessoas entre 15 e 29 anos de idade.

Em resposta a esses números alarmantes, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou em 2014 seu primeiro relatório global sobre o suicídio com uma mensagem de esperança: os suicídios são evitáveis. Os detalhes e dados estão no link: www.who.int/suicide

Pensando nisso, a OMS instituiu o mês de setembro como Setembro Amarelo com o objetivo de promover ações preventivas contra o suicídio.

A melhor maneira de prevenir o suicídio é a detecção precoce e o tratamento das angústias que o predispõe, é ouvir a voz por trás da dor antes que ela se cale.

O QUE OUVI NAS ETECs E NAS VIVÊNCIAS AO LONGO DOS ANOS DE CLÍNICA…

Ao ouvir a voz dos jovens em depressão e com pensamentos suicidas, pude constatar que a desesperança e a falta de valorização da vida são os maiores disparadores na hora de um ato extremo.

Numa sociedade onde o ter muitas vezes aparece antes do ser, muitos se perguntam qual seu papel e importância na vida…

Certa vez, ouvi da Dra Ceneide Cerveny (Comunicação oral – COGEA/PUCSP, 2013) que a rotina e a transmissão de valores familiares são as melhores prevenções ao uso de entorpecentes por jovens, pois estes se sentem ligados pela lealdade familiar o que os faz voltar para casa e não ser “pegos pelas famílias das ruas”. Penso que esse conceito também se aplica aos casos de depressão e ideações suicidas, pois a maioria que vê no suicídio a única saída para seus problemas não consegue sair da teia de suas dores para ver ao redor, para identificar suas potencialidades, e com isso, ter um objetivo de vida alcançável.

Os jovens de hoje, desde a infância estão sendo estimulados e superdimensionados com objetos materiais, mas nem sempre recebem os conceitos básicos de convivência. Noto pais que dispensam a maior parte do seu tempo e energia em conquistar “coisas” para seus filhos, como se isso fosse o melhor que pode lhes proporcionar – festas de aniversário, melhor escola particular que seus recursos podem pagar, brinquedos e viagens, ou seja, tudo o que o filho lhes pede. Porém, a maior necessidade de seus filhos que é: cuidar, educar, ouvir atentamente e dialogar para orientar muitas vezes é terceirizada por falta de tempo.

Diante disso, trago a importância do papel da família desde a tenra idade de seus filhos em trabalhar a valorização da vida, preparando-os para o que ela oferece, dando-lhes estrutura para as experiências tanto boas quanto ruins. Começando por lhes ensinar sobre o que é certo e errado, importante e fútil, transmitindo-lhes limites e regras para que tenham um estilo de vida equilibrado, cheio do que as crianças e jovens PRECISAM, não apenas o que QUEREM. Sem medo de dizer “não” aos seus filhos se o que eles querem não é o que eles precisam, pois não ter tudo o que se deseja não torna a vida vazia ou sem sentido.

Com esses workshops aprendi que é muito simples o que o jovem precisa para se fortalecer e seguir sua história, porém é ao mesmo tempo complexo, pois depende do quanto se está disponível para ouvir atentamente, compreender e orientar assertivamente. Simples porque basta o diálogo como ferramenta, mas complexo porque depende de tempo e disposição para.

Disposição para nos desconectarmos, enquanto pais, profissionais que os atendem e sociedade no geral, de nossas atividades cotidianas, das redes sociais, de nossos problemas individuais para nos conectarmos as eles. Para olharmos em seus olhos e perceber as emoções que eles carregam, para ouvirmos suas demandas. Para lembrarmos que a criança e o jovem não nascem sabendo viver, nós adultos que somos responsáveis por guiá-los nessa caminhada.

CONCLUINDO…

A meu ver, uma das melhores formas de lidar com essa dor que cala está no processo de “empoderamento” desses jovens que se sentem vazios. Mostrando suas potencialidades que estão adormecidas pelo inebriar da depressão e da insatisfação.

Falar sobre seus talentos, mostrando-lhes que apesar de não se sentirem bem são importantes e sua presença necessária, seja na família, na escola e na sociedade como um todo de alguma forma, ao contrário do pensamento que sua morte livra as pessoas do peso que sua vida causa ou que seu sofrimento não tem fim. Gostaria de compartilhar o relato de Cristal, cliente que tive a honra de atender e me solicitou que sua história fosse levada ao maior número de jovens possíveis:

“Meu nome é Cristal e atualmente tenho 21 anos. Com 18 anos descobri que estava com depressão, e provavelmente já estava com a mesma um ou dois anos antes.

Eu aceitei procurar uma psicóloga, contudo, não senti acolhimento da parte da profissional, nem empatia com o que sentia. Acabei desistindo de ir, e me afundei nas minhas mágoas. Eu ficava deitada o dia inteiro, não sentia prazer em sair e fazer atividades rotineiras, como tomar banho.

Certo dia, meu irmão me ouviu chorando, subiu até meu quarto e chorou junto; quase implorou que eu me ajudasse. Essa foi a primeira vez que vi meu irmão chorar, depois de seu casamento. Resolvi naquele dia que aceitaria procurar outra profissional e o fiz, já estava fazendo tratamento psiquiátrico e tomando fórmulas, conforme minha necessidade – claro, que estabelecido pelo médico.

Ao iniciar o tratamento com a psicóloga, comecei a notar melhoras, sentia que pela primeira vez um profissional estava de fato olhando para mim e me tratando como uma pessoa que possuia sentimentos.

Levei a ela meu histórico:

Eu praticava cutting nos pulsos (e escondia com pulseiras), a fim de aliviar as dores emocionais, chorava muito, comia compulsivamente ou passava horas sem comer nada. Ouvia músicas tristes e chorava compulsivamente. Descobri que juntamente da depressão, tinha ansiedade o que me prejudica até hoje, pois ansiedade é crônica.

Entretanto, com muito tratamento e força de vontade em melhorar e ter uma vida saudável comecei a praticar técnicas para controlá-la, a fim de que amenizasse minhas angústias – resultado da ansiedade.

O que tenho a dizer a vocês?

Poderia fazer um discurso clichê “de que tudo vai melhorar com o tempo”, mas eu digo para vocês que a maneira certa é a que te incomoda. Vocês precisam ir por outro caminho, o caminho difícil que não queremos e que é o de tocar nas nossas feridas. Pois é, é aí que tudo irá melhorar.

O momento em que você quiser melhorar e lutar para enfrentar suas próprias dores, aconselho que procure um profissional que você se sinta acolhido. Você saberá pelo primeiro atendimento, através da forma que o profissional te recebe, se ele/ela será a pessoa certa para te auxiliar nesse processo.

Se você que me lê não tiver condições financeiras para isso, não se preocupe, existem universidades que realizam um trabalho ótimo com estagiários e supervisão de excelentes profissionais. Se não procurar o atendimento por questão de tempo, pense se vale a pena ter uma vida cheia de angústias ou elaborar um cronograma e encontrar um tempo para você se ouvir e não para que o terapeuta te ouça. Conforme as sessões isso irá fazer sentido, pois quando o profissional te oferece uma morada provisória, uma escuta terapêutica, você vai se perceber e se ouvir, pois é diferente do que escutar sozinho seus próprios pensamentos, sem verbalizá-los para alguém.

Em síntese, continuem firmes e boa luta (e não boa sorte), pois só você pode mudar, mas não precisa e não deve fazer isso sozinho.

Sinceramente,
Cristal.”

Elisabete Garcia Marangon

Psicóloga clínica formada pela Universidade São Judas Tadeu
Especialista em Terapia familiar e de Casal pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Especialista em Psicologia do Transito pela Universidade Cruzeiro do Sul
Presidente da ANEXA.

Vamos falar sobre suicídio?

Um assunto compreendido como perigoso, proibido e extremamente devastador tem roubado a cena dos noticiários nacionais e internacionais; a segunda maior causa de mortes entre jovens no mundo: o suicídio.

De acordo com as estatísticas de saúde mundiais (WHO, 20101) no mundo, todos os anos, aproximadamente 1 milhão de pessoas tiram suas vidas, ou seja, uma taxa de mortalidade de 16 por 100.000 habitantes, o que contabiliza 1 morte a cada 40 segundos e coloca o suicídio como sendo a 13ª causa de morte mundial e, no Brasil, a 3ª mais frequente em indivíduos do sexo masculino com idades entre 15 e 29 anos e a 8ªentre as mulheres da mesma faixa etária.

É válido ressaltar que na população brasileira, apesar de o suicídio ser a 8ªcausa de morte entre as mulheres, entre 2011 e 2016 das 48.204 tentativas de suicídio 69% foram feitas por mulheres e 58% por envenenamento ou intoxicação.

Quanto à reincidência de tentativas, as mulheres também lideram esse ranking, enquanto os homens tem mais sucesso em suas tentativas, possivelmente por se utilizarem de formas mais agressivas e violentas.

As estatísticas de suicídio crescem no Brasil a cada dia e os dados recentes apresentados pelo Ministério da Saúde mostram que a faixa etária dos 15 aos 19 anos concentraram 722 mortes em 2015, um número que poderia ser ainda mais assustador se esse tipo de morte não sofresse as consequências da subnotificação, que ainda é uma realidade no nosso país.

Em Setembro de 2017, mês de prevenção e conscientização do suicídio, o Ministério da Saúde lançou uma agenda estratégica2, cuja meta principal é reduzir em 10% o número de suicídios no país até 2020. Para tanto, oferece algumas possibilidades de ações estratégicas envolvendo melhoria nas notificações, ampliação e qualificação da assistência através de orientações aos diversos setores tanto da área da saúde, quanto a mídia e centros de cuidado e acolhimento, como o CVV (Centro de Valorização da Vida), por exemplo.

Recentemente temos acompanhado uma onda de notícias envolvendo o ato de tirar a própria vida e discussões sobre a saúde mental dos jovens, o que seria extremamente benéfico e interessante se junto com isso a internet não fosse inundada por “receitas” e dicas para prever o comportamento suicida ou para diagnosticar quadros de transtornos de humor, como depressão e ansiedade, ou ainda transtornos de personalidade.

Devemos considerar, porém, que a questão é bem mais complexa e delicada do que isso, visto que o suicídio é compreendido como multifatorial, ou seja, diversos fatores contribuem para esse triste desfecho e entre as possíveis causas podemos encontrar aspectos econômicos, religiosos, sociais, culturais, biológicos, psicológicos e psiquiátricos.

O suicídio não tem cara e é, muitas vezes, o desfecho encontrado por muitas pessoas para acabar com um sofrimento interminável, acompanhado de uma dor lancinante e perturbadora. Contudo, a boa notícia é que o suicídio pode ser prevenido, mas para que isso aconteça é necessário um investimento em espaços dialógicos entre as famílias, escolas e toda a sociedade, para que esse assunto seja tratado com o respeito e a seriedade que merece.

É através do diálogo que construímos espaços seguros, de acolhimento e validação para que os adolescentes e jovens adultos possam expressar suas emoções, compartilhar seus pensamentos e, dessa maneira, sintam-se cuidados, protegidos e não ridicularizados por estarem sofrendo de algo subjetivo e que envolve sua saúde mental.

Infelizmente, apenas após acontecimentos amplamente difundidos pela mídia é que parece ter começado a fazer sentido para pais e educadores colocarem em pauta a discussão desse tema com os filhos e com a sociedade.

Investindo nesses espaços colaborativos de escuta e acolhimento criamos redes de apoio, ampliamos a consciência de toda a sociedade e instrumentalizamos os adolescentes, educadores e familiares a prestarem o socorro necessário àqueles que sofrem em silêncio.

Se você está preocupado com alguém ou pensando em se matar, não hesite em procurar ajuda, pois você não está sozinho. Procure ajuda através do CVV (www.cvv.org.br ou pelo telefone 188), ou busque por pessoas que você confia, que podem ser amigos, familiares, seu líder da igreja, seu terapeuta ou psiquiatra. Tente manter a calma, respirar e usar aquilo que você já aprendeu para superar esse momento, são poucos segundos e atitudes simples que podem salvar uma vida e lembre-se sempre, você fez e está fazendo o melhor que pode.

Mariana Filippini Cacciacarro

Graduação em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Mestrado em Psicologia Clínica pela mesma instituição e especialização em Terapia de Família e Casal pelo COGEAE-PUCSP. Atua no atendimento psicológico individual de crianças, adolescentes e adultos, atendimentos familiares e de casal, orientação de pais e supervisão de metodologia de pesquisa.

Quem vê cara, não vê intenção… Abuso sexual infantil

É difícil para a maioria das pessoas imaginarem um adulto tendo prazer sexual com uma criança, mas a realidade que nos cerca cada vez mais está mostrando como isso é real, doloroso e deixa marcas severas na vida dos envolvidos.

Algumas das frequentes perguntas que surgem a respeito do assunto com suas respostas podem ajudar a esclarecer questões sobre o abuso sexual infantil.

Qual a definição de abuso sexual infantil?

Muitos pensam que abuso sexual infantil é ter uma relação sexual completa com uma criança, mas a definição é muito mais ampla do que isso. Podemos caracterizar o abuso como: tocar a boca, genitais, bumbum, seios ou outras partes íntimas de uma criança com objetivo de satisfação dos desejos; forçar ou encorajar a criança a tocar um adulto de modo a satisfazer o desejo sexual. Fazer ou tentar fazer a criança se envolver em ato sexual. Forçar ou encorajar a criança a se envolver em atividades sexuais com outras crianças ou adultos. Expor a criança a ato sexual ou exibições com o propósito de estimulação ou gratificação sexual. Usar a criança em apresentação sexual como fotografia, brincadeira, filmagem ou dança, não importa se o material seja obsceno ou não.

Quais são as principais estatísticas que existem sobre o assunto?

O número de crianças e adolescentes abusados sexualmente no Brasil é cada vez maior, mas só uma minoria apresenta queixa. Isso se dá devido ao grande trauma psicológico acarretado e também porque muitas vezes o abusador mantém algum grau de parentesco com a vítima, quando não é o próprio pai ou padrasto, o que gera medo de retaliação. As estatísticas brasileiras a respeito de abuso sexual infantil estão defasadas, faltam verbas, falta preparo de quem acolhe as denúncias, faltam mais pesquisas. Em 2008, o Disque 100 recebeu cerca de 25 mil denúncias. Em 2008, a SaferNet Brasil, uma organização de combate à pornografia infantil na internet, recebeu 42.122 denúncias sobre abuso. Assim mesmo, sem muitas estatísticas, os números são alarmantes, e têm crescido a cada ano por haver mais esclarecimento e maior divulgação sobre o assunto, mas também pela maior possibilidade de pedófilos terem acesso às crianças.

De que forma a criança pode demonstrar aos pais ou responsáveis que sofreu abuso?

Os principais sinais que a criança mostra e podem ser observados pelos pais, professores ou outro cuidador da criança são: conhecimento ou comportamento sexual fora do esperado. Mudanças no comportamento como perda do apetite, pesadelos, medo de dormir, se afastar das atividades rotineiras. Afastamento dos amigos. Voltar a fazer xixi na cama. Chupar o dedo. Dificuldade de concentração na escola. Medo de alguma pessoa, ou pânico de ser deixada em algum lugar ou com alguém. Comportamento agressivo ou perturbador, delinquência, fuga de casa ou prostituição. Comportamentos autoagressivos. Irritação genital ou sangramento, inchaço, dor, coceira, cortes ou arranhões na área genital, vaginal ou anal.

Qual deve ser a postura dos pais?

Em primeiro lugar, não entrar em pânico. Muitas vezes, os pais já até tinham algum “pressentimento” sobre determinada pessoa, mas não deram a devida atenção à sua percepção. A criança pode ter medo de contar aos pais ou familiares, pois muitas vezes o abusador faz ameaças a ela ou aos seus queridos. Se a criança conseguir contar aos pais, atenção! Acreditem, dificilmente uma criança inventa histórias dessa natureza. Conforte a criança. Explique que não foi culpa dela. A culpa é do abusador e ele fez algo muito errado. Deixe a criança saber que você sente pelo que aconteceu. Fale a ela que você vai fazer de tudo para que isso não aconteça novamente.

Faça a denúncia ao Conselho Tutelar que pode dar todas as informações necessárias de como proceder (exame corpo delito, acompanhamento psicológico) Importante que a família seja encaminhada para Terapia Familiar.

Quais as principais consequências do abuso sexual infantil?

Confusão – A criança pode achar que é normal porque o abusador disse que é, mas é confuso por que ele também falou para não contar para ninguém.

Culpa – Por não ter feito nada para parar o abuso; porque às vezes podia sentir algo bom; sentia que recebia coisas especiais por fazer aquilo; acha que fez algo para que o abuso acontecesse; é tão má que mereceu o abuso.

Medo – De ter sofrido um dano físico irreparável; de ser descoberto pelos outros; de que só de olhar para ele saberão que é mau.

Raiva – Do abusador; de si mesma, por não parar o abuso, ou por gostar; do pai/mãe que não a protegeu de ser abusada; pode parecer uma criança passiva e submissa, mas está explodindo por dentro; pode descarregar sua raiva maltratando animais ou crianças menores.

Perda da confiança – Nos pais; nos adultos.

Se isso aconteceu com alguma criança que você conhece, busque ajuda especializada. Leigos no assunto com frequência machucam mais do que ajudam.

Terapeutas familiares

Abuso sexual na família é uma das situações mais confusas e perplexas ocorrendo em uma família hoje em dia. Nos Estados Unidos, mais avançados do que nós nessas pesquisas, estima-se que 1 em 4 garotas e 1 em cada 5 garotos serão abusados sexualmente até chegarem aos 18 anos de idade.

A maior parte dessas crianças é abusada por alguém que elas conhecem: um membro da família, um amigo próximo da família, um professor, algum líder religioso que tenha proximidade com a criança, pode ser por homem ou mulher também. O abuso sexual infantil é um segredo familiar traumático e sofrido, que têm efeitos marcantes em toda a família. A terapia familiar com estas famílias é fundamental para a cura das feridas e buscar recursos que assegurem que o abuso sexual não volte à essa família, nem a gerações futuras. Existem claros efeitos negativos de longa duração para muitas ou quase todas as vítimas. Problemas como distúrbios alimentares, abuso de substâncias, questões graves de ordem sexual. Além das consequências mais comuns: culpa, vergonha, re-vitimização, diminuição da auto-estima, depressão, dificuldades nos relacionamentos, e/ou também outros tipos de transtornos dissociativos. Isso não significa que toda criança abusada necessariamente apresente sintomas. Entretanto, há ampla evidência de que o abuso sexual é destruidor e precisa ser tratado com intervenções especializadas e focadas para parar o abuso e prevenir que futuras repetições do abuso aconteçam em outras gerações da família.

Dra Claudia Bruscagin

Possui Graduação em Psicologia pela Universidade de São Paulo (1988), Mestrado em Psicologia (Psicologia Clínica) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1996) e Doutorado em Psicologia (Psicologia Clínica) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2004)