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“Bullying” uma preocupação mundial

O “Bullying” faz vitima um em cada dez estudantes brasileiros. Em relação à população mundial, uma pesquisa de 2016 da ONU com 100 mil jovens em 18 países, nos mostra que em média, a metade desta população já sofreu algum tipo de “bullying” sendo os motivos geradores para tais atos ligados à: aparência física,
gênero, orientação sexual, etnia ou país de origem.

O “bullying” é uma experiência terrível, com consequências muitas vezes danosa. A palavra “bullying” não possui tradução literal para o português. “Bully” é a expressão em inglês, para valentão, “bullying” pode ser traduzido como intimidação. Hoje esse fenômeno é considerado uma forma de violência. Em geral, não só crianças e adolescentes, mas principalmente esses, estão expostos sistematicamente a uma série de atos agressivos sendo motivo de grande preocupação, gerando estudos em várias áreas da sociedade para melhor entendimento deste fenômeno.

Este ato, praticado tanto de forma direta quanto indireta, é de incidência muito expressiva e alarmante no ambiente escolar, onde o número de ocorrências tem gerado perplexidade muito grande entre educadores, pais e pesquisadores por seu caráter nitidamente anti social e perverso. Em sua forma direta podem ser observados atos como: agressões físicas: chutar, empurrar, bater, destruir objetos pessoais; agressões verbais, como gozação, apelidos dados de forma pejorativa, discriminação e exclusão.

Na forma indireta a “vitimização” é muito difícil de ser percebida. Fazem parte deste ato: a indiferença, o isolamento, exclusão, difamação e provocações ligadas às deficiências. O que se tem observado em alguns estudos é que meninos são mais propensos para “bullying direto” e meninas para o” indireto”. Parece que este comportamento agressivo e antissocial, não tem uma motivação palpável, em uma relação dissemelhante. O que ocorre de fato é, quando um estudante ou um grupo, elege como alvo, uma mira – um outro ou outros contra o(os) qual(quais) escolhe uma série de maus-tratos repetitivos, dificultando sua(s) defesa(s), gerando assim o pavor, a humilhação o desequilíbrio mental e emocional destes alvos que se sentem oprimidos.

Sendo assim, é de suma importância que família e escola estejam atentos, de mãos dadas, a possíveis mudanças, ainda que mínimas, ao comportamento dos filhos e alunos, buscando estabelecer um canal de comunicação que permita construir vínculos de confiança com os mesmos para que eles sintam acolhimento e possibilidade de apoio para se abrirem. Sabe-se que é somente através do diálogo aberto, amoroso a melhor
forma de combater esse tipo de violência, que pode causar efeitos catastróficos para a construção da identidade principalmente de crianças e adolescentes.

A Lei no13.185, em vigor desde 2016, classifica o “bullying” como intimidação sistemática, quando há violência física ou psicológica em atos de humilhação ou discriminação. A classificação também inclui ataques físicos, insultos, ameaças, comentários e apelidos pejorativos, entre outros. Convencionou-se que a data de 07 de abril, é o Dia Nacional de Combate ao “Bullying” e à Violência nas Escolas instituído em 2016, por meio da Lei no13.277. A escolha desta data está relacionada à tragédia que ocorreu em 2011, quando um jovem de 24 anos invadiu a Escola Municipal Tasso de Oliveira, no bairro de Realengo, no Rio de Janeiro, e matou 11 crianças. Nas escolas, são muitos os exemplos de atitudes agressivas capazes de causar sofrimento e angústia.

É muito comum ver casos de inibidos, introvertidos, intimidados pelos mais fortes e desinibidos. É comum encontrarmos apelidos pejorativos como: A menina mais gordinha sendo chamada de abóbora ou baleia; menino com óculos de quatro olhos, o magrinho de palito e por aí afora. No Brasil, estudos sobre o “bullying” afirmam que este fenômeno cresce assustadoramente e pode ter inúmeras causas: os modelos educativos familiares, como o autoritarismo, a permissividade, a ausência de limites e afeto, o abandono, a força das mídias, por meio de programas e filmes violento; além desses a influência cultural também tem seu papel – o egoísmo, o individualismo, o descaso reinantes na sociedade atual são colaboradores para a falta de empatia, compaixão, tolerância e respeito implícitos no bullying.

Os problemas causados pelo “bullying” variam de acordo com o tempo de exposição em que se esteve sujeito aos maus-tratos. Muitas vezes há um comprometimento da aprendizagem, desmotivação em relação aos estudos, podendo surgir processos psicossomáticos relativos à saúde física, mental e emocional da pessoa alvo, com manifestações físicas. Casos de “bullying” são muito graves porque se iniciam de forma silenciosa. O aluno que sofre a agressão em vez de contar para seus pais, contar na escola em geral sofre calado e começa a mudar seu comportamento. Importante colocar, que é na família que a criança desenvolverá repertórios e habilidades que serão requeridos na interação em outros ambientes. Assim famílias que apresentam características como a discórdia conjugal, habilidades parentais educacionais deficitárias, falta de monitoramento e negligência aumentam o risco de desenvolvimento de problemas de comportamento nas crianças.

Uma questão importante a saber: O que leva o agressor a praticar tal ato? O agressor quer ser popular, sentir-se poderoso,” ficar bem na fita”, ter uma boa imagem e isso faz com que o agressor atinja o colega várias e repetidas vezes, com humilhações e depreciações. O agressor é uma pessoa que não aprendeu a transformar sua raiva em diálogo.

Como um fenômeno relacional sistêmico, o “bullying” necessitaria ser trabalhado de forma engajada , família, escola ,meios sociais, trabalho este baseado nas relações entre diferentes subsistemas da comunidade: alunos, funcionários, educadores, pais e demais pessoas comprometidas com o desenvolvimento da criança e adolescente, tendo como foco:

  • Encorajamento e amparo, por meio de conversas, atitudes compassivas visando desenvolver o respeito às diferenças;
  • Promoção de campanhas de incentivo à paz e à tolerância;
  • Desenvolvimento de trabalhos didáticos, como atividades de cooperação e interpretação de diferentes papéis em um conflito;
  • Desenvolvimento em sala de aula de um ambiente favorável à comunicação e diálogo entre alunos;
  • Encorajamento dos alunos para denunciar o bullying procurando imediatamente a direção da escola ou pessoalmente ou por meio de uma pessoa da família responsável desse aluno.

Finalmente, é preciso buscar ativamente enfrentar o fenômeno bullying, seus agentes, vítimas e o cenário que o enseja, com campanhas de educação popular em todos os âmbitos, principalmente o escolar, mais favorável a acontecer. É importante compreender e disseminar a ideia que há formas de conter essa violência e que todos somos responsáveis por isso. Manter um diálogo entre pais e filhos é de extrema importância. Como resultado deste diálogo, orientar os filhos dando algumas sugestões de proteção em relação a um possível agressor: Ignorar o bullie e virar as costas. /Não demonstrar sentimentos. / Não fazer bullying nem querer brigar. /Procurar outros colegas, procurar ficar seguro. /Praticar a confiança e a assertividade. / Andar sempre acompanhado: dois (ou mais) são sempre melhores do que um. / orientar seu filho/aluno para ser colaborador e empático apoiando, fazendo companhia para alguém que esteja sendo vítima de bullying.

Enfim é fundamental falar sobre o bullying. Na medida em que for visto como um sério problema social que atinge todos nós, sem exceção, com certeza mobilizará famílias, escola, as autoridades e o meio social para encarar o problema com seriedade e eficiência.Ter leis apenas não resolve a situação é preciso ter consciência do tamanho do prejuízo que causa para toda a sociedade.

Referências:
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