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Artigo: “Seguir adiante”

Marangon E. G.: “Seguir adiante após a dor do diagnóstico de infertilidade: Trabalhando com casais inférteis na visão sistêmica”.

“Vermelho, essa cor intensa que representa o ápice da paixão, carregada de vida, alegria e emoção, mas que para muitos amarga a dor dadesilusão… de ver a cada mês, a esperança da concepção se esvair na imensidão da solidão! Como uma regra que cai sobre terra a constatação de que mais uma mulher chorará com seu útero, o ventre vazio de mais uma tentativa em vão…”

A inspiração em discorrer sobre esse tema surgiu por dois motivos, primeiro pela minha vivência pessoal por ter esse diagnóstico em meu histórico de vida e segundo por atender, na minha prática clínica, casais que se depararam com esse mesmo diagnóstico, trazendo para o contexto terapêutico dores, queixas e dificuldades oriundas a essa constatação indesejada, que refletiam em vários sistemas que participavam como: sistema familiar, no qual precisavam anunciar para suas famílias de origem a notícia da impossibilidade natural em dar seguimento ao nome; sistema marital, tendo a vida conjugal invadida pela impossibilidade natural de gerar; sistema social, muitas vezes afetado pela alteração nos papéis vividos pelo casal, onde se viam com a necessidade de incorporar um novo contexto em suas relações – o contexto da infertilidade e suas decorrências adentrando o sistema infértil.

Sistema infértil é o sistema conjugal que se encontra impossibilitado, temporária ou permanentemente, de gerar filhos biológicos, independentemente de quem seja o responsável pelo fator que causa a infertilidade, necessitando, se assim desejar ou puder de ajuda especializada e organiza-se em torno de, pelo menos, dois outros sistemas, o médico, composto pela equipe de profissionais, e o familiar.

Portanto, o terapeuta ao trabalhar com casais inférteis, consequentemente se depara com a necessidade deste casal em seguir adiante, ressignificando este diagnóstico inesperado, seja pela tomada de decisão em buscar tratamentos, partir para adoção ou optar por não ter filhos.

Conforme MAURANO, 2002, muitos casais que se confrontam com a infertilidade deparam-se com a questão de ter que ressignificar uma série de valores, conceitos e programações de vida antes de procurarem uma assistência médica especializada. O desejo de conceber aliado às costumeiras pressões que os casais sofrem por parte da família e de amigos para que tenham filhos aumentam ainda mais suas angústias e frustrações. Essa situação pode levar o casal à recriminação mútua pelo insucesso em conceber. Esse conjunto de fatores negativos pode levar à diminuição da espontaneidade nas relações sexuais da satisfação e da intimidade entre os parceiros. O significado que é dado a esse momento pode implicar todo o transcorrer do processo ao qual o casal decidir seguir, quanto na sua vida como num todo.

Com isso, geralmente o momento do diagnóstico da infertilidade é traumático para os casais. Como Macedo (2013) discute, dentro das práticas narrativas a infertilidade é trabalhada como trauma, pois seus efeitos abrem espaço para novas significações. O trauma é justamente o significado atribuído ao choque que o momento do diagnóstico causou. Esse significado é construído considerando os valores, mitos e a quebra da função da fertilidade para o casal, mudando o papel e o olhar que se tem de si mesmo a partir disso. Há, portanto, uma mudança de identidade inesperada. A infertilidade vem como um desastre humano, alterando completamente a organização emocional desse casal, levando-o a viver uma nova realidade – não gerar – sem escolha, vive-se o luto pelo filho que não vêm.

Cabe ao terapeuta trabalhar com o casal este momento, considerando todas suas nuances, atentando-se aos significados que são atribuídos ao diagnóstico de infertilidade, através da compreensão dos valores que foram empregados para tal.

Valores estes que são constituídos ao longo da história de vida dos cônjuges, através dos conceitos passados pelos seus familiares e contextos sócio-cultural e religioso ao qual estão inseridos. Bem como, buscar construir colaborativamente com o casal novos significados que visem auxiliar nesse processo de luto pelo filho que não vêm através da concepção natural e a tomada de decisão sobre como seguir adiante.

MACEDO, R. M. Traumas na Família. Comunicação oral – COGEA/PUCSP, 2013.

MAURANO, E. M. G, Do desejo à concepção. Enfrentando a reprodução assistida, Monografia de Especialização – Curso de Especialização em Terapia de Casal e Família e Comunidade do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo SP, 2002.