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A voz por trás da dor… como ouvi-la antes que se cale?

O relato da experiência interventiva com alunos de ETECS

MEDOS E ANGÚSTIAS QUE RONDAM A JUVENTUDE…

Há três anos fui procurada pelo coordenador pedagógico de uma ETEC de São Paulo para conversar a respeito dos medos e angústias que rondam a juventude atual, pois estava muito preocupado com seus alunos, uma vez que muitos lhe procuravam com comportamentos depressivos e idéias suicidas.

Percebera que, ao fazer rodas de conversas com os alunos muitos se sentiam angustiados e já tinham apresentado idéias suicidas em algum momento de suas vidas, o que o deixou alarmado, pois poderia haver casos de suicídio, se não tivesse alguma intervenção.

A partir de nossa conversa, surgiu a proposta de um ciclo de workshops com as temáticas mais relatadas pelos alunos como causadoras de angústia: depressão na adolescência e suas causas e violência doméstica.

Buscarei relatar essas experiências enriquecedoras nesse artigo, porém quero tristemente afirmar que ainda há muito que fazer nesta área, uma vez que os índices de depressão na adolescência e suicídio alarmam nos chamando a atenção pelo fato de que precisamos ouvir a dor de nossos jovens antes que suas vozes se calem.

DEPRESSÃO NA ADOLESCÊNCIA

A depressão é a principal doença e motivo de inaptidão entre os adolescentes, segundo relatório divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que cita acidentes de trânsito, Aids e suicídio como as principais causas de morte entre 10 e 19 anos. “A depressão é a causa predominante de doença entre os adolescentes”, afirma a OMS no primeiro relatório completo sobre os problemas de saúde dos adolescentes, elaborado com os dados fornecidos por 109 países.

Muitas vezes, os adolescentes ao serem questionados sobre os motivos, nem sempre conseguem chegar a uma causa específica, mas trazem uma somatória de vivências que os angustiam a ponto de pensar na morte como sua única saída. Relatam uma dor extrema, a ponto de preferir a dor física, provocando-a.

Mesmo, com um grande número de pesquisas acerca da temática, ainda não foi possível “desvendar” totalmente quais são os fatores capazes de desencadear as alterações de humor. Sabe-se que a hereditariedade é um fator importante, mas hoje também já se sabe que fatores ambientais, como violência, bullying, perda de entes queridos, conflitos a cerca da sexualidade, entre outros, são capazes de afetar a vulnerabilidade de uma pessoa a problemas mentais.

Conversando com os jovens nas ETECs, esses fatores ambientais ficaram muito evidentes como estressores, a seguir destrincho os principais citados por eles:

  • Conflitos familiares – independente do nível sócio-ecômico, há um relato de distanciamento entre os membros da família, no qual o diálogo vem perdendo espaço como facilitador de entendimento;
  • Violência doméstica – Abuso sexual e físico por parte daqueles que deveriam cuidar e proteger da criança e do jovem;
  • Dificuldade de socialização – o jovem acreditando não ser bom ou interessante a ponto de se relacionar com o próximo;
  • Bullying;
  • Sexualidade – conflitos a cerca da definição do objeto de desejo; iniciação sexual e exposição da vida sexual pelas redes sociais;
  • Desilusão amorosa;
  • Dificuldades financeiras – a valorização do ter no lugar do ser;
  • Doenças Crônicas – tanto vividas pelo jovem quanto por entes queridos;
  • Perda de entes queridos

Interessante mencionar que ao falar sobre cada fator de risco acima citado com os jovens, várias manifestações aconteceram, com relatos de identificações próprias, ou seja, jovens presentes se sentindo acolhidos para dar seus depoimentos e pedir orientação, pois não sabiam como lidar com esses sentimentos que os abatiam ou de jovens pedindo ajuda para amigos da mesma faixa etária que estavam passando por essas dificuldades e que eles se sentiam no papel de telespectadores por assistir seus amigos em sofrimento sem ter poder de ação para socorrê-los.

Ficou evidente como é um assunto real e fervilha nessa fase do ciclo vital – a adolescência, bem como a importância de falarmos a respeito, ou seja, a importância da família em se aplicar no ouvir ao seus jovens, da escola propiciar ambientes facilitadores de diálogos onde eles possam se orientar e da sociedade no geral estar atenta ao que a juventude apresenta.

Em nossas conversas, muitos sintomas que são mencionados na literatura ficaram evidentes, dos quais cito alguns para nos manter em alerta:

  • Retardo psicomotor (dificuldade de realizar atividades rotineiras, como estudar, atividades físicas individuais ou coletivas)
  • Sentimentos de desesperança e culpa (tudo gira em torno de si, tendo a sensação que sua presença afeta o todo negativamente e que nada do que faz é bom o suficiente, reforçando o pensamento de que não vale a pena viver)
  • Perturbações do sono, principalmente hipersônia (distúrbio do sono que ocorre quando a pessoa dorme muito durante a noite e durante o dia, mas está sempre cansada). Dormir para não sentir…
  • Alterações de apetite e peso.
  • Isolamento e dificuldade de concentração (relatam que seus pensamentos funcionam como turbilhão, sem conseguir se desligar das vivências e emoções geradoras de angústia).
  • Prejuízo no desempenho escolar.
  • Baixa auto-estima.
  • Queixas físicas (dor abdominal, fadiga e cefaléias).
  • Graves problemas de comportamento, especialmente o uso abusivo de álcool e drogas como uma tentativa de entorpecer-se e deixar de sentir suas angústias.
  • Ideias e tentativas de suicídio.

COMPORTAMENTO SUICIDA

O suicídio no adolescente é o fato mais relevante do quadro clínico da depressão. Dentro do espectro do comportamento suicida situam-se as ideias suicidas, as tentativas de suicídio e o suicídio consumado.

Segundo a OMS mais de 800 mil pessoas morrem por suicídio a cada ano. Isso significa uma morte a cada 40 segundos. Muitos outros tentaram suicídio, e o suicídio é a segunda principal causa de morte entre as pessoas entre 15 e 29 anos de idade.

Em resposta a esses números alarmantes, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou em 2014 seu primeiro relatório global sobre o suicídio com uma mensagem de esperança: os suicídios são evitáveis. Os detalhes e dados estão no link: www.who.int/suicide

Pensando nisso, a OMS instituiu o mês de setembro como Setembro Amarelo com o objetivo de promover ações preventivas contra o suicídio.

A melhor maneira de prevenir o suicídio é a detecção precoce e o tratamento das angústias que o predispõe, é ouvir a voz por trás da dor antes que ela se cale.

O QUE OUVI NAS ETECs E NAS VIVÊNCIAS AO LONGO DOS ANOS DE CLÍNICA…

Ao ouvir a voz dos jovens em depressão e com pensamentos suicidas, pude constatar que a desesperança e a falta de valorização da vida são os maiores disparadores na hora de um ato extremo.

Numa sociedade onde o ter muitas vezes aparece antes do ser, muitos se perguntam qual seu papel e importância na vida…

Certa vez, ouvi da Dra Ceneide Cerveny (Comunicação oral – COGEA/PUCSP, 2013) que a rotina e a transmissão de valores familiares são as melhores prevenções ao uso de entorpecentes por jovens, pois estes se sentem ligados pela lealdade familiar o que os faz voltar para casa e não ser “pegos pelas famílias das ruas”. Penso que esse conceito também se aplica aos casos de depressão e ideações suicidas, pois a maioria que vê no suicídio a única saída para seus problemas não consegue sair da teia de suas dores para ver ao redor, para identificar suas potencialidades, e com isso, ter um objetivo de vida alcançável.

Os jovens de hoje, desde a infância estão sendo estimulados e superdimensionados com objetos materiais, mas nem sempre recebem os conceitos básicos de convivência. Noto pais que dispensam a maior parte do seu tempo e energia em conquistar “coisas” para seus filhos, como se isso fosse o melhor que pode lhes proporcionar – festas de aniversário, melhor escola particular que seus recursos podem pagar, brinquedos e viagens, ou seja, tudo o que o filho lhes pede. Porém, a maior necessidade de seus filhos que é: cuidar, educar, ouvir atentamente e dialogar para orientar muitas vezes é terceirizada por falta de tempo.

Diante disso, trago a importância do papel da família desde a tenra idade de seus filhos em trabalhar a valorização da vida, preparando-os para o que ela oferece, dando-lhes estrutura para as experiências tanto boas quanto ruins. Começando por lhes ensinar sobre o que é certo e errado, importante e fútil, transmitindo-lhes limites e regras para que tenham um estilo de vida equilibrado, cheio do que as crianças e jovens PRECISAM, não apenas o que QUEREM. Sem medo de dizer “não” aos seus filhos se o que eles querem não é o que eles precisam, pois não ter tudo o que se deseja não torna a vida vazia ou sem sentido.

Com esses workshops aprendi que é muito simples o que o jovem precisa para se fortalecer e seguir sua história, porém é ao mesmo tempo complexo, pois depende do quanto se está disponível para ouvir atentamente, compreender e orientar assertivamente. Simples porque basta o diálogo como ferramenta, mas complexo porque depende de tempo e disposição para.

Disposição para nos desconectarmos, enquanto pais, profissionais que os atendem e sociedade no geral, de nossas atividades cotidianas, das redes sociais, de nossos problemas individuais para nos conectarmos as eles. Para olharmos em seus olhos e perceber as emoções que eles carregam, para ouvirmos suas demandas. Para lembrarmos que a criança e o jovem não nascem sabendo viver, nós adultos que somos responsáveis por guiá-los nessa caminhada.

CONCLUINDO…

A meu ver, uma das melhores formas de lidar com essa dor que cala está no processo de “empoderamento” desses jovens que se sentem vazios. Mostrando suas potencialidades que estão adormecidas pelo inebriar da depressão e da insatisfação.

Falar sobre seus talentos, mostrando-lhes que apesar de não se sentirem bem são importantes e sua presença necessária, seja na família, na escola e na sociedade como um todo de alguma forma, ao contrário do pensamento que sua morte livra as pessoas do peso que sua vida causa ou que seu sofrimento não tem fim. Gostaria de compartilhar o relato de Cristal, cliente que tive a honra de atender e me solicitou que sua história fosse levada ao maior número de jovens possíveis:

“Meu nome é Cristal e atualmente tenho 21 anos. Com 18 anos descobri que estava com depressão, e provavelmente já estava com a mesma um ou dois anos antes.

Eu aceitei procurar uma psicóloga, contudo, não senti acolhimento da parte da profissional, nem empatia com o que sentia. Acabei desistindo de ir, e me afundei nas minhas mágoas. Eu ficava deitada o dia inteiro, não sentia prazer em sair e fazer atividades rotineiras, como tomar banho.

Certo dia, meu irmão me ouviu chorando, subiu até meu quarto e chorou junto; quase implorou que eu me ajudasse. Essa foi a primeira vez que vi meu irmão chorar, depois de seu casamento. Resolvi naquele dia que aceitaria procurar outra profissional e o fiz, já estava fazendo tratamento psiquiátrico e tomando fórmulas, conforme minha necessidade – claro, que estabelecido pelo médico.

Ao iniciar o tratamento com a psicóloga, comecei a notar melhoras, sentia que pela primeira vez um profissional estava de fato olhando para mim e me tratando como uma pessoa que possuia sentimentos.

Levei a ela meu histórico:

Eu praticava cutting nos pulsos (e escondia com pulseiras), a fim de aliviar as dores emocionais, chorava muito, comia compulsivamente ou passava horas sem comer nada. Ouvia músicas tristes e chorava compulsivamente. Descobri que juntamente da depressão, tinha ansiedade o que me prejudica até hoje, pois ansiedade é crônica.

Entretanto, com muito tratamento e força de vontade em melhorar e ter uma vida saudável comecei a praticar técnicas para controlá-la, a fim de que amenizasse minhas angústias – resultado da ansiedade.

O que tenho a dizer a vocês?

Poderia fazer um discurso clichê “de que tudo vai melhorar com o tempo”, mas eu digo para vocês que a maneira certa é a que te incomoda. Vocês precisam ir por outro caminho, o caminho difícil que não queremos e que é o de tocar nas nossas feridas. Pois é, é aí que tudo irá melhorar.

O momento em que você quiser melhorar e lutar para enfrentar suas próprias dores, aconselho que procure um profissional que você se sinta acolhido. Você saberá pelo primeiro atendimento, através da forma que o profissional te recebe, se ele/ela será a pessoa certa para te auxiliar nesse processo.

Se você que me lê não tiver condições financeiras para isso, não se preocupe, existem universidades que realizam um trabalho ótimo com estagiários e supervisão de excelentes profissionais. Se não procurar o atendimento por questão de tempo, pense se vale a pena ter uma vida cheia de angústias ou elaborar um cronograma e encontrar um tempo para você se ouvir e não para que o terapeuta te ouça. Conforme as sessões isso irá fazer sentido, pois quando o profissional te oferece uma morada provisória, uma escuta terapêutica, você vai se perceber e se ouvir, pois é diferente do que escutar sozinho seus próprios pensamentos, sem verbalizá-los para alguém.

Em síntese, continuem firmes e boa luta (e não boa sorte), pois só você pode mudar, mas não precisa e não deve fazer isso sozinho.

Sinceramente,
Cristal.”

Elisabete Garcia Marangon

Psicóloga clínica formada pela Universidade São Judas Tadeu
Especialista em Terapia familiar e de Casal pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Especialista em Psicologia do Transito pela Universidade Cruzeiro do Sul
Presidente da ANEXA.

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