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A família do usuário de drogas e sua reinserção social

Experiências do Projeto Quixote

Falar sobre família e droga é um grande desafio, devido à complexidade do tema. Quando incluímos nessa equação o adolescente, o desafio se potencializa, por conta das questões e particularidades que a própria adolescência traz. Este texto é um convite a pensar na função que a droga ocupa dentro do sistema familiar em nossa sociedade e como, em nosso dia a dia, podemos revisitá-la. Apesar de breve, que estas reflexões quixotescas possam ser úteis para você, leitor!

A temática das drogas e sua relação com o homem acompanham a humanidade ao longo dos tempos, passando de um uso ritualístico, com finalidade de transcendência na antiguidade, para o consumo contemporâneo de busca de prazer, alívio instantâneo de desconforto físico, psíquico ou social, estando presente em todos os credos e classes sociais. Em nosso contexto social atual, a droga não está associada apenas ao encanto das festas; há indivíduos que, para conseguirem ampliar a produtividade nos negócios, consomem droga simplesmente para se manterem acordados no trabalho. Outros tantos buscam no efeito da substância uma maneira de lidar com o insuportável processo do viver.

É precisar considerar que o uso de drogas é sistêmico e evidencia uma trama constituída pela conexão de diferentes sistemas envolvidos diretamente no processo do uso de drogas, tais como: a relação do usuário com a droga, com a família; com a lei e com o tráfico – o que revela sua complexidade, tanto em termos de análises, como de estratégias de ação e tratamento.

A família, o adolescente e a droga

A perspectiva sistêmica considera a família um sistema social natural, constituído por indivíduos relacionados, com laços emocionais e uma história compartilhada; os membros são inter-relacionados e interdependentes, isto é, as ações e comportamentos de cada membro influenciam e são simultaneamente influenciados pelos comportamentos dos demais. Através do tempo, a família desenvolve os padrões de interação e repetição que constituem e propagam a estrutura familiar. Esta, por sua vez, governa o funcionamento de seus membros, permitindo certa previsibilidade na forma de agir destes, facilitando desta forma sua interação. (Calil, 1987).

Assim, ao considerarmos o uso de drogas por um ou mais membros da família, a teoria dos sistemas entende o fenômeno da dependência como um sistema da disfunção familiar, sintoma este que se expressa um conjunto de comportamentos desajustados que desencadeiam o consumo problemático de substâncias.

Observamos que, atualmente, uma das grandes preocupações dos profissionais que lidam com o usuário de drogas está ligada à orientação e suporte aos familiares, bem como as estratégias terapêuticas voltadas à inserção de seus membros no atendimento, em especial quando falamos de famílias com filhos adolescentes.

Tanto os padrões de comportamento como os fatores de predisposição constitucional, sociocultural e de desenvolvimento são construídos por um sistema de crença familiar específico. Investigar o sistema de crenças de famílias geradoras de problemas relacionados à droga torna-se uma das tarefas principais no trabalho terapêutico.

Desse modo, a preocupação com o uso de drogas na adolescência nos reporta ao meio social e familiar do adolescente, uma fez que a família é o primeiro grupo social da criança, grupo onde ela emergiu e que prove garantias para suas necessidades básicas afetivas de proteção, de cuidado e sustento, e por intermédio do qual se introduzirá na sociedade.

Stanton e Todd (1997) trazem um aspecto importante quanto aos problemas relacionados ao membro da família com uso de drogas e que podemos observar com frequência em nossa experiência com adolescentes no Projeto Quixote:

A família se sente impotente e frequentemente culpa as causas externas (os amigos ou o bairro) pelo problema. Em algumas famílias o problema das drogas do “paciente identificado” é foco de todos os problemas familiares. Assim o usuário recebe frequentemente superproteção por parte da família e é tratado como uma pessoa inútil e incompetente. Estas famílias encaram a droga como uma força poderosa que o usuário de drogas não pode resistir. (Stanton e Todd, 1997, p 101).

Segundo Olievenstein (1984), psicanalista francês que trabalhou durante anos com usuários de drogas e cuja compreensão eu também compartilho diz que, do ponto de vista familiar, o usuário de drogas não teve nenhuma infância específica. No entanto ocorrem eventos e “passes” específicos na infância do mesmo e isto se verifica não obrigatoriamente com crianças de alto risco social, em famílias de alto risco, mas com crianças aparentemente normais que sofreram uma ou mais rupturas.

Nessa mesma linha, quando falamos do contexto familiar do usuário de droga, encontramos estudos de Bergeret (1983) que mencionam não existir um verdadeiro tipo de “família de drogados”, nem um modelo padronizado de pais de farmacodependentes, tendo verificado, enfim, que pessoas com tais problemas, mesmo gravemente afetadas, poderiam aparecer nos mais diversos tipos de estrutura familiar.

Por outro lado, alguns autores consideram existir similaridades entre essas famílias, a despeito de não existir um perfil típico de famílias de dependentes de drogas. São observados, nesse sentido, vários sintomas dentro da família, tais como: pais ou irmãos com problemas psiquiátricos, problemas com drogas (álcool, uso de barbitúricos, tranquilizantes), anorexia, problemas escolares e de relacionamento anteriores ao uso de drogas, conflitos parentais, divórcio, violência no lar, etc. (Angel, 1987; Costa, 1989; Stantonet al, 1997).

Stanton e Todd (1997) apontam que há, na adolescência, três tempos: o primeiro é o uso do álcool e se manifesta como um fenômeno social; depois vem o uso do cigarro, que é influenciado pelos pares; e em terceiro o uso de drogas ilegais. Esse terceiro tempo e seu agravamento estão relacionados mais diretamente à qualidade da relação estabelecida entre os pais e o filho do que a outros fatores. Dessa forma, supõe que o uso de drogas mais letais à saúde, que geram quadros de dependência, é consequência de uma disfunção familiar.

Também de acordo com Fender (1999), quando a relação pais e filhos é enfocada pelo prisma da questão da dependência de drogas, inúmeros estudos ressaltam a importância que as interações familiares têm na etiologia e desenvolvimento não só do uso de drogas, mas também de outros problemas comportamentais apresentados por adolescentes.

Famílias que produzem dependentes de substâncias são definidas por Kalina (2001) como “famílias psicotóxicas”, já que a busca de substâncias psicoativas para o enfrentamento dos problemas se apresenta como modelo indutor abusivo, representando, não raro, a dupla mensagem parental, já que o discurso refere à proibição e o comportamento não verbal é o do uso de substâncias para alívio do sofrimento (tranquilizantes, álcool, entre outros).

Quanto aos comportamentos e compulsões observados na família, intergeracionalmente, autores como Kaufman (1989) e Rezende (1997) destacam em seus estudos serem comuns outros membros da família apresentar comportamentos ligados à dependência, tais como: compulsão ao jogo, à comida, ao trabalho, às drogas e outros. O dependente é o portador do sintoma da disfunção familiar e colabora para manter o equilíbrio da família. Observa-se, assim, que o problema da dependência é parte do funcionamento familiar, e contribui para a estabilidade desse sistema.

Com respeito à dinâmica familiar, estudos mostram que nas famílias com dependentes masculinos, a figura materna mantém um comportamento apegado, superprotetor e permissivo com o filho dependente, e este ocupa uma posição favorecida em relação aos outros filhos. As mães dos usuários geralmente os descrevem como bem educados e afirmam que não deram trabalho. Em compensação, os pais são vistos, em geral, como ausentes, desapegados e fracos, e por sua vez, com uma disciplina rude e incoerente, e as relações estabelecidas são difíceis, com efetivo distanciamento afetivo (Carter e McGoldrick, 1995; Cerveny, 1997; Costa, 1989).

Em ambas as famílias, tanto as dos usuários masculinos como as dos femininos, há, na maioria dos casos, ausência de um dos progenitores, frequentemente o pai, ou então dos dois, seja por separação, morte ou abandono. O início do uso de drogas, segundo Stanton e Todd (1997), parece estar associado a esta perda ou então a de outra pessoa significativa, geralmente devido a mortes repentinas e traumáticas.

Como podemos observar, é unânime entre os autores citados a importância dada à família, provedora de cuidados e proteção, e que pode tanto produzir saúde, como doença. Assim, quando lidamos com famílias de membros usuários de drogas, é necessário levar em consideração os fatores de risco e proteção observados em cada núcleo familiar.

Nesse sentido, a família pode constituir tanto fator de risco como fator de proteção para o uso ou abuso de substâncias. É comum observar, na prática com famílias, que pais presentes, regras definidas, hierarquia clara, envolvimento afetivo e respeito aparecem como fatores de proteção para o uso de drogas. Por outro lado, pais com histórico de drogas, questões de saúde mental, autoritarismo/exigência/permissividade, podem constituir fatores de risco para os filhos.

Tabela 1 – Fatores de risco e proteção na família para o uso de drogas

Fatores familiares de proteção Fatores familiares de risco
Pais que acompanham atividades dos filhos Pais que fazem uso abusivo de drogas
Estabelecimento de regras e condutas claras Pais que sofrem doenças mentais
Envolvimento afetivo com a vida dos filhos Pais excessivamente autoritários ou muito exigentes ou permissivos
Respeito aos ritos familiares Famílias cujas resoluções imediatas são dadas como formas de impedir a reflexão
Estabelecimento claro da hierarquia familiar

Fonte: Curso de capacitação sobre Redução da Oferta e da Demanda de Drogas (Albertaniet al.,2004)

Embora existam inúmeras razões para o uso inicial de álcool e outras drogas pelos adolescentes, o aspecto familiar e o relacionamento com os amigos exercem influência significativa, sendo que a presença de conflitos familiares está associada ao alto consumo de drogas (De Micheli, 2001).

Famílias em que a convivência entre seus membros é ruim são mais suscetíveis ao uso de drogas, principalmente aquelas que apresentam déficit em áreas que envolvem afetividade e estabelecimento de limites (Rebolledoet al,.2004)

Somado ao que foi colocado, Péres-Gomes e Mejía-Motta (1998) apontam para essa questão ao investigarem características e padrões de interação em famílias que não apresentam membros consumidores de substâncias psicoativas. Constatam que a qualidade da relação do adolescente com os pais é o fator protetor mais eficaz contra o consumo de drogas. Fatores como expressão de afeto, coesão familiar, comunicação e diálogo, autonomia dos membros, clareza e coerência nas normas que regem o funcionamento familiar, congruência entre os pais sobre a forma de educar e os filhos são características que tanto os pais como os filhos utilizaram, de maneira repetida, para descrever sua situação familiar.

Com relação ao papel da família na prevenção do uso de drogas, é fundamental obter informações sobre as causas do inicio do consumo e dos efeitos das diferentes drogas. Os pais devem passar informações aos filhos dentro de um clima familiar adequado sem recorrer desnecessariamente ao argumento catastrófico das consequências do consumo de drogas. É importante que a conversa sobre uso de drogas ocorra de forma clara, sempre adaptada à idade dos filhos. A falta de informação sobre o efeito das diferentes drogas pode ser um dos aspectos que podem impedir a percepção de que o filho está começando a consumir substâncias psicoativas.

Quanto ao envolvimento dos pais na problemática dos filhos,é importante ressaltar que, em geral, os familiares de adolescentes usuários de drogas participam mais do tratamento e são menos resistentes quando comparados aos familiares de adultos que fazem uso de droga. Isso se dá porque o adolescente, geralmente, vive com os pais e estes se sentem diretamente responsável pelos filhos (Fishmanet et al, 1997).

Por outro lado, é preciso ressaltar a existência de situações nas quais o adolescente se apresenta solitário em seu pedido de ajuda. A não presença dos responsáveis pode estar relacionada ao fato da família desconhecer o uso de drogas pelo filho ou evitar acessá-lo demais para não piorar a situação. Isso também pode indicar resistências por parte da família, um modo para impedir que o terapeuta acesse o sistema familiar e questione a sua dinâmica.

Mesmo com todas as dificuldades inerentes ao processo de inserção da família, é fundamental envolvê-la, sempre que possível, no acompanhamento do adolescente, uma vez que ajuda o sistema familiar a se mobilizar para ajudá-lo. O atendimento relacionado à questão da droga implica adentrar a dinâmica da família e compreender a relação do paciente com seus pais e demais membros da família, demonstrando empatia e disponibilidade frente às instabilidades previsíveis desse percurso.

Considerando as questões mencionadas sobre adolescência, família e drogas, um dos grandes desafios que se instaura é a discriminação entre o que é esperado para um adolescente e o que aparece desfigurado pelo uso de alguma substância, seja ela lícita ou ilícita. Nesse caso a informação sobre as drogas é a nossa grande aliada no atendimento às famílias e seus filhos usuários.

Nossos Quixotescos

Falar das experiências vivenciadas no atendimento àsfamílias do Projeto Quixote não é tarefa simples: primeiro, porque lidamos com aspectos subjetivos das famílias, e o subjetivo por si só já traz uma série de questões; segundo, porque encontramos nesse espaço pessoas advindas de uma realidade bastante complexa e que incluem, na sua grande maioria, dificuldades intensificadas pela situação de pobreza, tráfico, saúde mental, violência, entre outros, e tudo isso associado à deficiência de atendimento público.

Desse modo, é comum encontrarmos na rotina do nosso trabalho odesafio que as famílias enfrentam, cada uma a seu modo, na educação de seus filhos, muitas vezes sinalizada pela rebeldia e reação frente aos limites impostos pelos pais, somado as questões atuais da nossa tão violenta sociedade.

O Projeto Quixote atua na missão de transformar a história de crianças, jovens e famílias em complexas situações de risco, através do atendimento clínico, pedagógico e social integrados, gerando e disseminando conhecimento. (Projeto Quixote).

Com a missão de atender as necessidades dos “fregueses” e ajudá-los a construir uma outra história, o Projeto Quixote conta com vários programas: Pedagógico, Clínico (Centro de Atenção Psicossocial Infanto Juvenil – CAPS IJ) e Centro de Referência as Vítimas de Violência – CRVV), Atenção à Família, Formação e Pesquisa, Educação para o Mundo do Trabalho e Refugiados Urbanos.

Voltado ao atendimento de crianças e adolescentes com uso de drogas, o Programa Clínico o CAPS do Projeto Quixote tem como proposta oferecer atendimento, realizar acompanhamento clínico e promover a reinserção social dos seus usuários através do acesso e garantia dos seus direitos civis e fortalecimento dos laços familiares e comunitários, buscando a garantia do cumprimento dos princípios do Sistema Único de Saúde (SUS) e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Quando falamos das drogas e situação de rua temos ainda o Programa Refugiados Urbanos. Muitas vezes a violência, o abuso e a opressão começam dentro de casa. Este é o maior motivo que leva as crianças às ruas, a violência, em suas mais diferentes formas. O objetivo final do Programa é o rematriamento, ou seja, a reinserção dessas crianças e jovens em suas comunidades de origem. Por conta da rua ser a moradia e referência dessa população, nosso trabalholeva em consideração a rede social de pertencimento da criança e/ou adolescente, nesse caso, torna-se o seu próprio território.

Além da situação de rua recebemos, na sede do Projeto Quixote, uma demanda diversificada de crianças, adolescentes e seus familiares, que trazem desafios cotidianos de suas vidas, como a violência física e sexual, o abandono, a falta de referências, saúde mental e o abuso de drogas. Nossos jovens e suas famílias são encaminhados por diversos serviços de referência da infância e adolescência, tais como: Conselhos Tutelares, Vara da Infância e Juventude, Medida Sócio Educativa (Internação, Semi-Liberdade e Liberdade Assistida), além das escolas, Unidade Básica de Saúde (UBS), Hospitais e da rede em geral.

A equipe é composta por psicólogos, assistentes sociais, médico, psiquiatras, psicopedagoga, terapeuta ocupacional, fonoaudióloga, redutores de danos, farmacêutico, enfermeiras, auxiliares e oficineiros, e tem como proposta o atendimento individual, terapias em grupo, oficinas de dança, teatro e esporte, e outras, visitas domiciliares e institucionais e atendimento aos familiares.

No CAPS os atendimentos e encaminhamentos são realizados visando à articulação com a rede e serviços de saúde regionais. A equipe participa também do Matriciamento, que tem como objetivo o cuidado colaborativo entre a saúde mental e a atenção primária.

O acompanhamento dos adolescentes usuários de drogas e suas famílias tem como objetivo a prática da redução de danos, estratégia de atendimento preconizada e estabelecida pela política pública contra as drogas da Secretaria da Saúde. Tal prática leva em consideração um trabalho focado na redução do consumo nocivo da substancia para o indivíduo e se refere a políticas, programas e práticas que visam primeiramente reduzir as consequências adversas para a saúde, sociais e econômicas do uso de drogas lícitas e ilícitas, sem necessariamente eliminar por completo o seu consumo.

A primeira fase do atendimento do adolescente que nos procura é o Acolhimento, porta de entrada do nosso serviço. Acontece em dias específicos para crianças e adolescentes, paralelamente aos Grupos Multifamiliares. Tem como principal proposta “deixar pousar”, sem pressa, respeitando o seu ritmo, cuja trajetória é única para cada um de nossos atendidos. O Acolhimento é um lugar de pertencimento, a partir do qual é permitido demonstrar necessidades e angústias, mas também potências, trocas e saberes.

O trabalho com as crianças e adolescentes é centrado na arte e cultura, e oferece oficinas lúdicas, dança, música, grafitti, informática, trabalho, atividades de preservação do meio ambiente e reaproveitamento de materiais recicláveis, teatro e outros. As oficinas e atividades são espaços de inclusão de diferenças, interesses, necessidades e linguagens, bem como de acolhimento às diversas formas de expressão cultural, no exercício do respeito aos limites próprios e alheios.

Núcleo de Atenção à Família

O Núcleo de Atenção à Família trabalha inspirado numa perspectiva sistêmica integrada a diferentes níveis de ação terapêutica individual e grupal e recebe as famílias que chegam ao Projeto Quixote objetivando o atendimento de seus filhos. Os familiares que buscam o serviço são atendidos individualmente e/ou em Grupos Multifamiliares, que são verbais e ocorrem semanalmente. Tem como objetivo principal construir um espaço de expressão da subjetividade e do fortalecimento dos vínculos familiares, em especial da relação pais-filhos.

Grupo de Terapia Multifamiliar: Funciona como porta de entrada para o acesso às famílias. É um espaço facilitador para mudanças nos padrões de relacionamento, uma vez que possibilita a seus membros ampliar as percepções sobre si mesmos e sobre os problemas que os afetam. As intervenções têm caráter de reflexão, buscando reforçar os aspectos positivos das relações familiares e pessoais. (Fender e Escudero, 2011)

De modo geral, as famílias que nos procuram buscam ajuda para lidar com seus filhos usuários, como também as consequências da exclusão social e o preconceito proveniente de seu uso. Percebemos que as famílias chegam sem a compreensão dos motivos que levaram seus filhos ao uso da droga e, se esse uso, configura-se um uso indevido ou circunstancial.

É interessante observar que muitas famílias chegam com a ideia de que o filho é um drogado e, a maconha (a grande vilã), porta de entrada para outras drogas. A família, na sua concepção equivocada quanto ao conceito e efeitos da droga, o filho que faz uso da maconha chegará, obrigatoriamente, à cocaína, ao álcool e por fim, ao devastador uso do crack. Buscando aliviar tal aflição, traçamos um projeto que auxilie a família a desconstruir os preconceitos existentes sobre as drogas, através da informação e conhecimento das questões existentes dentro da própria família.

Cabe ressaltar que as falas apresentadas pelos membros da família indicam que a droga não é a protagonista, mas sim um padrão a mais a ser considerado, competindo com vários outros, tais como: abandono, violência física e sexual, dificuldades em estabelecer limites e expressar afeto, problemas de saúde mental e hierarquia, o que pode indicar que o uso de substâncias parece ser utilizado como forma de apaziguar o sofrimento ocasionado por todas essas questões.

O trabalho baseado na conversação como forma de trilhar novos caminhos, auxilia a família na compreensão do real significado do uso de substâncias. Propicia ainda a busca por uma gama de possibilidades para lidar com seus entraves, enraizados em discursos dominantes e que são apresentados por narrativas diferentes pelos diversos membros da família.

Acolher a narrativa familiar e utilizá-la como processo transformador é fundamental quando lidamos com famílias cuja dinâmica é a droga. Segundo Grandesso (2011) o ser humano é, antes de qualquer coisa, um narrador. Todas as pessoas têm uma história para contar; e, se não a tem, deixam de existir como pessoas. São suas histórias que as fazem humanas; mas também o que as aprisionam e tornam-se extremamente fiéis aos seus relatos trágicos, e é aqui onde entra a terapia. Lentamente, o terapeuta se compromete a escrever conjuntamente uma nova história. E eles constroem uma nova realidade.

Nesse sentido, o atendimento as famílias tem sido de grande importância no tratamento de crianças e adolescentes envolvidos com a problemática da droga. Partimos de um olhar tridimensional – social, clinico e pedagógico – para compreender e transformar a história da família e a maneira como enfrentam o problema.

No decorrer dos encontros com a família, é possível observar e compreender os padrões de interação existentes nas diversas gerações desses adolescentes, designados fatidicamente como sendo o único problema da família. Tal compreensão nos leva a rever, em parceria com a família, os padrões relacionais que desencadeiam o uso de substâncias e que se repetem gerações a fio, além de nos dar informações sobre o que os jovens querem comunicar com o uso de drogas.

Ao buscar entender os padrões interacionais, observamos que as famílias, cristalizadas em um discurso carregado de problemas, trazem na figura dos filhos os responsáveis pelos problemas apresentados em sua dinâmica. Chegam sem a percepção de que os comportamentos de cada membro são resultados da dinâmica relacional e repetições geracionais de todo o grupo familiar.

Segundo Carter e McGoldrick (1987), quando o adolescente entra em conflito com um dos pais, os esforços para diminuir a tensão frequentemente repetem antigos padrões de relacionamento da família de origem dos pais. Os pais que fizeram um esforço consciente para educar seus filhos de modo diferente, evitando os mesmos “erros que seus pais cometeram, muitas vezes têm um brusco despertar”. Quando os filhos atingem a adolescência, eles muitas vezes ficam surpresos ao observar semelhanças de personalidade entre seus filhos e seus pais.

Cabe ressaltar, no entanto, que a repetição dos modelos se faz pelo seu oposto, ou seja, pelo antimodelo daquele proposto pelo sistema familiar. A adoção do antimodelo é tão forte como a adoção do próprio modelo, pois, de qualquer forma, continua sendo a referência. Frequentemente, podemos observar que, no decorrer das fases do ciclo vital, aquilo que era antimodelo pode ser deixado de lado e trocado pelos modelos aprendidos originalmente. A forma de repetição do antimodelo é tão rígida e determinante como a do próprio modelo e, não raro, de uma simetria que acaba lembrando o que se queria anular. (Cerveny, 2011).

No atendimento as famílias do Projeto Quixote, com a finalidade de analisar padrões de repetição no sistema familiar, fazemos uso do Genograma. O Genograma é um Instrumento de grande importância, amplamente utilizado no campo da saúde e da saúde mental, sua aplicabilidade a famílias com usuários de droga é fundamental, pois revela ser importante como um instrumento auxiliador não apenas para a construção de uma história familiar que, por si só, já é singular, mas também para edificação de um diagnóstico que ajuda a elaborar um plano de ação para a construção do processo terapêutico. (Payá, 2014).

Para ilustrar um caso atendido no CAPS do Projeto Quixote, segue o Genograma de uma família, atendida há três anos em nosso serviço:

A avó, Helenita (*), 41 anos, buscou o serviço para tratar de seu neto, Vitor (*), atualmente com 15 anos, que fazia uso de maconha e cocaína, além do envolvimento com o narcotráfico. Para Vitor, que estava presente na data do acolhimento, foi construído um planejamento de atendimento. Para a avó, o Grupo Multifamiliar e atendimento individual. Tanto Helenita como Vitor aderiram bem ao tratamento. Por conta de uma ameaça de morte logo após a sua chegada, Vitor foi submetido a uma medida protetiva e encaminhado para um abrigo no qual permaneceu até pouco tempo. No abrigo Vitor fazia uso de cigarro e, eventualmente, maconha.

Vitor passou por atendimento individual e grupos terapêuticos. A avó participou alguns encontros do grupo multifamiliar e hoje segue em atendimento individual semanal. A bisavó, D. Elzira (*), compareceu em alguns encontros pontuais. O atendimento de Helenita teve como objetivo principal acolher as suas questões e ajudá-la a modificar a dinâmica familiar violenta, em especial na relação com Vitor.

(*) Os nomes foram trocados para preservar a identidade dos atendidos.

Com o genograma, foi possível observar que em todas as gerações há pelo menos um membro com uso de drogas (lícitas ou ilícitas). A violência física, psicológica e sexual, incluindo o abandono, também se fazem presentes nas relações e permeiam todas as gerações, em especial tendo as mulheres como vítimas e, ao mesmo tempo, agressoras.O maior consumo de drogas foi o uso de álcool, sendo consumido repetidamente nas diversas gerações. Esse fato é trazido por Helenita com muito pesar, ao lembrar que por diversas vezes, por volta dos seus 15 anos de idade, buscava a mãe caída no bar. Helenita também fez uso de álcool, levando-a perder vários empregos por conta desse hábito.

Por essa razão, no atendimento familiar,foi preciso compreender, acima de tudo, a dinâmica existente e os modos de interação familiar, incluindo os silêncios e os “não ditos” que contribuíram para perpetuar o uso de droga e a violência, observados transgeracionalmente.

De modo geral, é preciso também considerar que, se por um lado temos repetições de padrões interacionais que acrescentam e enriquecem a experiência da família, podemos, por outro, ter repetições que impedem o crescimento e acabam conflitando nas demais gerações, como é o caso da família citada. Tal situação se repete nas inúmeras famílias que atendemos no Projeto Quixote, em geral com múltiplos problemas e alto grau de vulnerabilidade social.

Instaura-se um grande desafio para os profissionais de saúde, juntamente com os familiares que vivenciam a violência e o uso de drogas como forma de se comunicar: o de analisar e acolher a história da família, comumente marcada pela violência e pelo excessivo sofrimento durante a infância e propagado pelas diversas gerações.Assim, o conhecimento desses padrões torna possível a busca por mudanças relacionadas à maneira como seus membros experienciam as diversas situações, de forma a promover preventivamente novos modelos de padrões interacionais, trazendo à luz possibilidades de reescreverem suas histórias.

E para terminar…

Considerando a conexão do uso de drogas, o significado para cada indivíduo e o padrão relacional da família do usuário, vale lembrar o quão importante é incluir a família no tratamento e construir com ela estratégias para que possa se sentir mais competente no cuidado de si mesma, através da reinserção no território do qual ela faz parte. A atitude da família em buscar ajuda e acompanhar o adolescente no tratamento passa a ser um fator de proteção, uma oportunidade de crescimento e retomada da responsabilidade no cuidado de seus filhos, incluindo aqueles que não fazem uso da droga.

Acreditamos que envolvendo os familiares no tratamento e construindo com estes um bom vínculo de confiança, conseguimos melhores resultados e permanência dos familiares e seus filhos no Projeto Quixote. Além disso, observamos que ao longo do tempo, a família se fortalece e passa a ser uma rede de apoio no momento da inserção social através do resgate dos laços afetivos e espaço de cuidado e proteção. Além de tudo isso, o trabalho com famílias desenvolve o aspecto preventivo, o que beneficia todos os outros membros da família e que podem agir como agentes multiplicadores na comunidade.

Não podemos, enfim, deixar de reconhecer e compreender a família nas diversas e complexas dimensões, incluindo as questões de parentalidade e as condições nas quais nascem e crescem seus indivíduos. Pautado neste reconhecimento, o trabalho com famílias torna-se cada vez mais desafiador, um convite à jornada de desafios e dissabores, mas também de conquistas e novas narrativas.

Para concluir, abaixo uma visão poética sobre as famílias que atendemos, delineada e oferecida sabiamente por nosso mestre Oswaldo Di Loreto:

Poderia mandar fazer um carimbo,
manter o refrão e ir substituindo as Anas por Marias
e os Paulos por Josés.

Qualquer que fosse a “queixa-figura”,
o lamento que se entreouvia na “queixa fundo”
era sempre a falta de encantamento,
de algum romantismo, de “sonhanças” comuns,
de atitudes solidárias e de participação ativa na vida familiar,
até mesmo nas duras tarefas de educação dos filhos.

No fundo, no fundo, contavam de uma vida desperdiçada.

O que relatavam, basicamente,
era que os filhos não conheciam o pai
e que suas vidas tinham ficado
idênticas as vidas dos personagens do Graciliano:
“secas”

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